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Mercado imobiliário

Verde é a esperança

Uma das tendências da urbanização contemporânea baseada nos estudos de sustentabilidade global de alimentos prevê que as cidades sejam autosustentáveis: que tenham no entorno suas próprias fazendas produzindo alimentos sem modificação genética para alimentar sua população, gerando qualidade na produção de orgânicos

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postado em 30/05/2016 16:57
Há alguns anos, fui convidada a conhecer um projeto de chacreamento próximo a Belo Horizonte. A proposta era lotear uma imensa fazenda, preservando a sede e as benfeitorias como áreas comuns. Os proprietários das chácaras poderiam usufruir de toda a estrutura da fazenda: sede, curral, plantações etc., inclusive optando por participar dos cultivos e da criação de gado. Na ocasião, a fazenda era modelo em horticultura e fabricação de cachaça tipo exportação. Ou seja, a fazenda continuaria produtiva, os condôminos poderiam ratear as despesas e as bonificações do negócio adquirindo cotas de participação de acordo com seu interesse. Poderiam optar por adquirir lazer e/ou agronegócio, mesmo que para subsistência.

Fiquei encantada com todo o projeto, mas infelizmente ele não foi adiante. Desconheço ainda outro projeto nos mesmos moldes. Mas nos Estados Unidos os incorporadores foram mais além: estão surgindo os “agrihoods”. Trata-se de empreendimentos residenciais em formato de fazendas comunitárias de agroecologia.

Próximo à cidade de Davis na Califórnia, por exemplo, foi construído o The Cannery, uma fazenda comunitária com aproximadamente 40 hectares e pouco mais de 500 casas sustentáveis, alimentadas por energia solar e equipadas com tomadas de energia para carros elétricos. Tem rede de 16 quilômetros de trilhas de bicicleta, a proposta da praça central é para encontros ao ar livre e uma sala de aula foi criada para aqueles que quiserem aprender sobre agricultura. De acordo com os organizadores, “a fazenda será gerida pelo Centro de Aprendizagem Baseada em Terra, grupo sem fins lucrativos que pretende executar programas de educação agrícola para estudantes e aspirantes a agricultores, além de uma operação comercial com foco em vegetais orgânicos, para abastecer a comunidade e serem vendidos fora”.

Uma das tendências da urbanização contemporânea baseada nos estudos de sustentabilidade global de alimentos prevê que as cidades sejam autosustentáveis: que tenham no entorno suas próprias fazendas produzindo alimentos sem modificação genética para alimentar sua população, gerando qualidade na produção de orgânicos – diminuindo problemas de saúde causados pelos pesticidas, como autismo, Alzheimer, câncer e outros.

Tive, numa outra oportunidade, visitando um empreendimento residencial no Bairro Buritis, Região Oeste de Belo Horizonte: um prédio residencial de aproximadamente 10 andares, com duas unidades por andar, de apartamentos de quatro quartos compactos. Ao conhecer a área comum, tive uma agradável surpresa: em vez de piscina e quadras, tinha um pomar de árvores frutíferas e espaço para horta. Parabenizei o construtor e disse que trabalharíamos comercialmente nesse diferencial de mercado. Infelizmente, os pretendentes não vislumbraram aquilo como atrativo e acredito que depois de uns 10 anos, eles já devam ter cimentado a área ou construído uma piscina no local.

Mas estou certa do sucesso de iniciativas assim, gosto e aposto nelas. Entendo como em alguns casos inúteis e dispendiosas as diversas piscinas, quadras de tênis, salões, espaços fitness, campos de golfe etc. Visito diariamente lindas e ociosas áreas de lazer de prédios extremamente cuidados e de bom gosto, projetos sensacionais, alguns até maiores que clubes. Poucas vezes vejo moradores usufruindo. Quanto maior a área de lazer dos edifícios, menor, proporcionalmente, o número de usuários, pois em geral são de famílias que trabalham e estudam nos dias de semana e têm casas de fins de semana na praia ou no campo.

Em São Paulo, o arquiteto Francês Jean Nouvel, um dos principais nomes da arquitetura contemporânea, lançou um projeto de um hotel de luxo e unidades residenciais dentro do processo de revitalização do Complexo Cidade Matarazzo, localizado no Centro da cidade. “Vencedor do Pritzker 2008, ele questionou os princípios da estética moderna em busca de uma atitude poética na arquitetura.”

Trata-se de uma torre de 24 pavimentos localizada próximo à Avenida Paulista e prevê a continuidade vertical da paisagem local, de vegetação exuberante. Trabalhando a memória do lugar, dialoga com o antigo hospital e maternidade Matarazzo tombado desde 1986. Assim, a torre de mais de 100 metros de altura se desenvolve em diferentes níveis, formando terraços e jardins elevados que recebem árvores de pequeno e médio porte. É muito verde!

Percebo que as pessoas anseiam cada vez mais em se conectar com a natureza, com a água, a fonte de comida e com a terra. “Éramos felizes e não sabíamos...” Não tínhamos muito bem a dimensão disso até uns anos atrás, mas o culto à natureza traz um equilíbrio. Estávamos perdendo esse contato genuíno. No entanto, acredito que estamos entrando numa era de novos valores: o que é bom é cozinhar em casa, com produtos saudáveis, sem agrotóxicos. Nós vamos ao mercado ou à feira para escolher os ingredientes da receita . Valorizamos roupas de algodão ou lã, sem fios sintéticos. Tomamos chás para evitar o mal-estar que nos afeta. Cultivamos hortas caseiras. Assim, embelezamos nossa casa com imagem de uma microfazenda produtora de vida. Isso é lar, um cultivo às origens.

Quando fiz prova de redação para registro no Conselho Regional dos Corretores de Imóveis (Creci) o solicitado foi: redija um anúncio de jornal com x palavras para vender um apartamento com tais características. Se a prova fosse hoje, escreveria um modelo de anúncio para essa nova geração que cultua a qualidade de vida: apartamento com amplas janelas com vista para as montanhas, varanda com jardineiras já plantadas com diversas espécies de arbustos e flores. Cozinha montada e com horta vertical integrada com a sala de estar. Taxa de condomínio isenta para quem produz fruticultura na área externa do pilotis. Prédio com aquecimento solar, três vagas no bicicletário por apartamento e área de convívio debaixo dos pés de jabuticaba.

*Diretora da Céu-Lar Imóveis, diretora da Rede Netimóveis, conselheira da Câmara do Mercado Imobiliário e vice-presidente da CMI-Secovi mulher

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