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Morar bem é...Dormir um sono tranqüilo

Publicação: 26/02/2007 13:48 Atualização:

 (Gladyston Rodrigues/Especial para o EM)
Sanzio Dolabela Canfora*

Da janela da área de serviço podia ver os quintais das casas com seus cachorros, galinheiros e jabuticabeiras. A paisagem evocava uma deliciosa lembrança da infância no interior. Estava sensível a tudo: texturas, sons e cheiros, especialmente de comida.

O primeiro dia de volta a Belo Horizonte foi marcado pelo reencontro com um passado distante. Foram quase 16 anos morando fora. E cheguei a me perguntar como poderia ter trocado esse festival de sensações deliciosas pelo frio, poluição e carência afetiva próprios da vida no Velho Mundo.

Na primeira noite, cansado da longa viagem, dormi bem. Mas, não demorou muito, meu sono foi interrompido por um galo que cantou seu domínio às 3h30. Tudo bem que ele tenha tido um pesadelo e acordado no meio da noite, mas o galo vizinho não gostou de ser acordado tão cedo e protestou. Logo, muitos galos reclamaram. Concordo com eles, pois 3h30 é cedo demais. Os cães também concordaram e logo podia-se ouvir toda uma sinfonia de protestos, que durou o resto da noite.

O apê de minha irmã foi a melhor moradia que tive nos últimos 18 anos. O bairro é central e um dos poucos onde ainda se podem encontrar crianças brincando na rua. Os vizinhos se conhecem e, à primeira vista, o senso de comunidade parece prevalecer. Contudo, a insanidade do egoísmo daqueles que comem ovos e frango ao molho pardo de graça aos domingos me fez arquitetar vários planos para eliminar a produção avícola e canina do bairro.

Pensei em soprar num longo tubo pequenas porções de milho e chocolate envenenados; afinal, todos merecemos uma boa refeição antes da nossa hora. Mas nenhum dos planos foi levado adiante. Todos temos o direito de ter animais de estimação e não seria eu quem partiria o coração de uma criança que alimentou e viu crescer a pequena bola de pêlos ou penas. Não seria justo exigir outro cardápio aos domingos em favor de noites bem-dormidas. Em todo caso, do outro lado do muro, a felicidade é sagrada.

*Fotógrafo, mestre em fotografia e comunicação visual, retornou ao Brasil depois de morar 16 anos em Londres, na Inglaterra

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