Bernardo Furtado*
Morar bem é harmonizar o espaço-tempo cotidiano para garantir satisfação e qualidade de vida. Essas necessidades múltiplas se reproduzem em várias características da residência escolhida: no espaço interno, na localização, e no entorno e até mesmo simbolicamente.
Internamente, o espaço prazeroso preenche as demandas de cada um dos seus moradores. O meu canto, o seu, o nosso, o das crianças, o da família. Embora seja fluído e único, o espaço interno permite as especificidades individuais. Entretanto, proporciona simultaneamente aquele somatório de momentos e acasos que, juntos, conformam os habitantes e deixam vestígios e práticas de uns nos outros que se tornam positivamente contaminados pelo resto de suas vidas. Isso porque morar no mesmo espaço-tempo é compartilhar a intimidade essencial de cada um.
No entorno, morar bem é estar satisfeito com a paisagem urbana próxima. Um quintal com árvores frutíferas para uns; alguns metros do cinema, da praça, do amigo da esquina para outros. Note o leitor como essas preferências são díspares e como as vantagens de uns tornam-se problemas para outros: as folhas que não param de sujar o terreiro, o trânsito dos cinéfilos, a algazarra das crianças ou os marmanjos na calçada.
Na sua relação maior com a cidade, a metrópole ou a vila, a casa é referência, porto, origem e destino, meio das atividades que constroem, todos os dias, cada vida. A localização é relativa a cada uma das ações e, mais importante, mutante no tempo.
Mudam-se os locais de trabalho, as escolas, os amigos, as relações. Nossa casa, entretanto, é relativamente fixa no espaço e contribui como pano de fundo para o denso tecido de lembranças e momentos importantes de cada um. Isso fica bem explícito no discurso dos avós, que associam fases da longa vida aos pontos de moradia: “Quando eu morava na rua …”. Em termos prospectivos, ao planejar o futuro não há como deixar de imaginar eventos (e seus desdobramentos fantásticos) e considerá-los em relação ao local-casa a escolher hoje.
Uma característica fundamental do ato de morar é que se deve fazê-lo todos os dias. Não é possível morar em lugar algum por apenas duas semanas. Há os hotéis. Ah, mas os hotéis já estão bem descritos na literatura como “não-lugares”! São estéreis, impessoais e desenhados para ser fugazes e esquecíveis. O paradoxo que se coloca é que, temporalmente, a decisão de morar bem é complexa, pois envolve o hoje cotidiano e suas necessidades diárias, bem como o futuro, com suas demandas longínquas e incertas, mas que são consideradas no presente.
A resolução do problema da escolha de morar bem está sujeita a muitas condicionantes e variáveis intangíveis. Não há solução pronta. Felizmente, o próprio ato de se debruçar sobre o problema traz vantagens de entendimento para seus participantes e a decisão, embora com alto grau de rigidez, não é fixa, mas adaptável.
A decoração e a disposição interna da residência, a conquista dos espaços são feitos aos poucos e a cada dia. As relações com o entorno também são construídas, assim como aquelas com a cidade, ao longo de uma vida. Resta certo que o ato de morar reflete o momento vivido de cada pessoa, nunca perfeito, mas em constante melhoria. No fundo, são os processos de modificação que importam.
* Arquiteto, coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário UNA
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