Empalhadores passam o ofício para frente de geração em geração

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.
postado em 16/08/2010 11:33 Zulmira Furbino /Estado de Minas
O empalhador Jose Raimundo dos Santos, de 76 anos, que trabalha desde pequeno aprendeu com os pais a restaurar cadeiras de palhas, e hoje trabalha na garagem de sua casa - Marcos Michelin/EM/D.A Pres O empalhador Jose Raimundo dos Santos, de 76 anos, que trabalha desde pequeno aprendeu com os pais a restaurar cadeiras de palhas, e hoje trabalha na garagem de sua casa
Eles não param nunca. Estão sempre concentrados, tecendo suas tramas em pontos nobres de Belo Horizonte. E usam sua atividade, uma tradição que passa de pai para filho, de geração em geração, como uma infalível estratégia de marketing, uma vez que seu negócio depende, basicamente, de visibilidade. Mas não se engane com a simplicidade do ambiente de trabalho dos empalhadores, especializados em consertar cadeiras de palhinha na cidade. Trabalhando em pequenas lojas, que agregam serviços como estofamento e reforma de móveis, ou como itinerantes, na própria rua, esses profissionais recebem encomendas de arquitetos, decoradores, lojistas, órgãos do governo e até da Casa Cor.

Há 21 anos trabalhando na porta da Reformadora Savassi, Marlon de Abreu aprendeu o ofício com o pai, que, por sua vez, aprendeu com o seu próprio pai. Ele trabalha com o irmão e foi o responsável por elaborar a trama de uma cadeira de balanço criada por ninguém menos do que o arquiteto Oscar Niemeyer. "Uma sobrinha dele pegou o projeto do divã e mandou fazer o móvel. Também já trabalhei para o Palácio do Governo e para o Museu de Artes e ofícios", conta. Mas se o trabalho às vezes é glamuroso, os rendimentos decorrrentes dele, nem tanto. O faturamento líquido mensal com a atividade rende a Abreu cerca de R$ 1,5 mil, em média. Para isso, ele trabalha de segunda a sábado, de 8h às 20h. Mas não é raro seguir até as 22h.

Galeria: veja o trabalho dos empalhadores de BH

As irmãs Dulce Fernandes da Silva e Maria de Lourdes Fernandes da Silva mudaram-se para Belo Horizonte há pouco tempo e, ao se depararem com Marlon de Abreu na Savassi, logo pediram um orçamento para consertar uma cadeira que foi da mãe delas. "É a primeira vez que encontramos alguém que refaça as tramas. Viemos de Poços de Caldas e lá não tinha ninguém que trabalhasse nisso."

E esse é o segredo do negócio. Júlio Silvestre trabalha há mais de 20 anos na Rua Marília de Dirceu, em Lourdes. Seu horário de serviço vai de 9h às 17h. Além da rua, ele tem um oficina onde refaz as tramas das cadeiras dos clientes, mas não quer nem saber de sair do ponto que ocupa há duas décadas. "Não dá para sair da rua. Essa é uma estratégia para que eu possa ser visto pelos meus clientes", diz o empalhador, que não costuma gostar de fazer o serviço na casa dos clientes.

"É ruim para eles e para mim. Com o que ganho aqui (R$ 1,2 mil) dá para pagar com folga a prestação do meu carro (um Palio Weekend que ele usa para transportar as cadeiras)", justifica. Nesse ramo, pode-se queixar de falta de dinheiro, não de falta de serviço. "A palhinha nunca saiu de moda", continua Júlio., vestido impecavelmente com camisa social, cinto e sapato bem engraxado. O arquiteto Flávio Moreira concorda. Segundo ele, o material empresta transparência aos móveis, além de ser de fácil reposição. Moreira tem em casa uma cadeira desenhada pelo artesão português Joaquim Tenreiro e assegura que a peça é mais bonita do que as estofadas. "Eu não trocaria. A luz atravessa a cadeira com palhinha e o desenho fica mais valorizado."

Aos 77 anos, José Raimundo dos Santos adotou o ofício de empalhador desde que se aposentou como mestre de obras. "Aprendi com minha avó, fazendo flores de lã em trama", explica. Ele trabalha na porta de casa. A cadeira onde se senta está colocada sob um tapete que, por sua vez, fica em cima do chão batido do terreiro. Para proteger-se do sol, usa um grande chapéu de palha. A cena é bonita. "Começo a trabalhar às 5h50 e só para lá pelas 19h. Nunca calculei quanto consigo ganhar, mas com o dinheiro que entra dá para guardar toda a minha aposentadoria (um salário mínimo)". Pedro Rodrigues, que faz suas tramas numa lojinha chamada Oficina da Palha, na Rua Pium-í, no Bairro Cruzeiro, Zona Sul da capital, também nunca calculou sua remuneração. "Mas sem trabalho não fico", garante.
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação
600

Últimas Notícias

ver todas
25 de maio de 2018
21 de maio de 2018

No Lugar Certo você encontra o que procura