Ao sabor dos trópicos

Projetos que valorizam a luminosidade e a ventilação mudam perfil da construção no Brasil

Criatividade, tecnologia e auxílio de recursos regionais permitem transformações que vão além de questões estéticas, garantindo conforto e economia na arquitetura tropical

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postado em 25/03/2012 09:21 / atualizado em 25/03/2012 10:11 Júnia Leticia /Estado de Minas
Eduardo de Almeida/RA studio


Os países tropicais são caracterizados por temperaturas quentes e úmidas, muito propícias e atrativas para o turismo. No entanto, esses aspectos também podem se tornar obstáculos para quem quer construir a casa própria. No Brasil, por exemplo, os projetos geralmente seguem padrões utilizados em países europeus, o que não condiz com as características geográficas e climáticas locais. Essa é a análise feita pelo arquiteto e sócio-proprietário da Arqsol Arquitetura e Tecnologia Tião Lopes. Por isso, ele aconselha o uso de soluções naturais para as construções. O resultado é mais economia na hora de erguer a casa e na manutenção da construção depois de pronta.

Por isso, o arquiteto defende a necessidade de destacar tudo o que é genuinamente brasileiro ao desenvolver o projeto do imóvel. “Muitas vezes, os arquitetos fazem um desenho inspirado em características francesas, inglesas ou espanholas que, apesar de interessante, trata-se de soluções para características de clima e geografia de outro continente. Aproveitar essas influências no Brasil pode não ser o correto”, considera Tião. Como exemplos de soluções a serem adotadas aqui, o arquiteto cita a parede dupla e a ventilação cruzada permanente. “Mas os condicionantes da arquitetura tropical têm de entrar no conceito da estética e do funcional de cada estrutura. Os princípios dessa arquitetura, também chamada bioclimática, podem ser adotados em qualquer local ou clima, desde que entrem na composição inicial do projeto”, ressalva Tião Lopes.

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Há várias formas de valorizar, nos projetos, as possibilidades naturais disponíveis. Uma delas é adotar o pé-direito alto, propiciando maior volume e renovação de ar, como conta Tião. “Entre as vantagens está a redução dos impactos ambientais, uma vez que as estruturas não precisam de ar condicionado para climatizar o ambiente e a iluminação natural é a máxima possível”, destaca. Mas a primeira orientação para quem vai construir e quer aproveitar as características do local é observar a posição do Sol. Outro ponto a ser levado em consideração é a direção dos ventos dominantes, pois são eles que refrigeram a casa naturalmente.

Uso de tetos retráteis em áreas internas do imóvel dá charme e facilita a circulação de luz e ar por ambientes sem janelas  - Eduardo de Almeida/RA studio Uso de tetos retráteis em áreas internas do imóvel dá charme e facilita a circulação de luz e ar por ambientes sem janelas


Seguir essa linha também favorece a sustentabilidade. “Quando se faz uma arquitetura mais adequada ao clima tropical, reduzimos o consumo de energia elétrica, agredimos menos o meio ambiente e prejudicamos menos a saúde das pessoas, pois quanto mais próximo do natural melhor o bem-estar do ser humano”, diz Tião. Outra característica que é considerada como fundamental ao se construir um imóvel é a inércia térmica. Essa expressão, que pode causar um certo estranhamento para quem está pensando em fazer sua casa, traduz-se pela técnica que garante o resfriamento natural dos ambientes, uma vez que absorve calor durante o dia e libera à noite, permitindo que a construção fique agradável em todas as estações do ano. “A inércia térmica é uma propriedade que alguns materiais tenham que é a qualidade de não esquentar ou esfriar muito.”

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MATÉRIA-PRIMA
Mas por que é importante saber isso? Porque conhecer a diferença entre os materiais e suas propriedades influencia no resultado, ou seja, na qualidade de vida de quem vai morar no imóvel. Tião Lopes explica que uma chapa metálica esquenta muito, por isso sua inércia térmica é bem pequena. Já a alvenaria demora a aquecer e esfriar, ou seja, tem uma grande inércia térmica, assim como o isopor. “Em um país tropical, como o Brasil, é importante não deixar o calor entrar nas construções. Dessa forma, materiais com essa propriedade são muito importantes”, comenta.

Apesar de agora estarem sendo mais difundidas nos projetos, técnicas como essa não são desconhecidas no interior do Brasil. Como exemplo, Tião Lopes cita que os índios xingus já há um bom tempo utilizam características que marcam a arquitetura tropical: constroem suas ocas com bambu e palha de coqueiro, materiais que têm grande inércia térmica. Além disso, essas moradias têm um pé-direito alto e piso de chão batido para auxiliarem no resfriamento para dias quentes.


SOLUÇÃO AO ALCANCE DE TODOS

O objetivo maior de se pensar em soluções nacionais é propiciar conforto aliado à economia. E para isso há uma variedade de materiais para detalhes técnicos que definem o projeto do ponto de vista estético, formal e sustentável. Para conhecê-los, o consumidor tem como seus aliados profissionais competentes e a curiosidade. O arquiteto Cioli Stanciolli reconhece que praticamente não existem arranjos impossíveis de serem executados atualmente. “A plasticidade dos novos materiais e um bom estudo inicial do projeto e seu entorno permitem construções com excelente adaptação a quaisquer climas”.

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Para a designer de interiores da Dekor Design, Marli Viana, o mais importante é ter a consciência de que as condições de conforto podem ser criadas por meio da manipulação dos espaços e a composição dos elementos utilizados nas fachadas, com a orientação solar. “No Brasil, onde o clima é quente e úmido, as edificações deverão ser ventiladas, protegidas dos efeitos do sol, com os fechamentos verticais ou grandes telhados em construções retangulares, seguindo sempre a orientação solar.”

Além dos recursos construtivos, há soluções que podem ser empregadas no design de interiores com ótimos efeitos. Brises, cobogós, gelosias, buzinotes (veja quadro), persianas e a escolha correta dos materiais cerâmicos contribuem para uma arquitetura mais tropical. “Existe um grande número de fechamentos possíveis para solucionar e adequar projetos. Embora esses sejam utilizados quase que em qualquer parte do planeta, a maneira de uso e a forma de execução são ligadas às raízes culturais de cada povo”, comenta Cioli Stancioli.

Controle correto da entrada natural de luz e ar ajuda a garantir conforto térmico em vários ambientes e facilita o uso de vegetação  - Eduardo de Almeida/RA studio Controle correto da entrada natural de luz e ar ajuda a garantir conforto térmico em vários ambientes e facilita o uso de vegetação


Entre essas alternativas, o arquiteto cita o cobogó, elemento vazado que pode ser fabricado em cimento, vidro, argila, cerâmica, entre outros materiais. Bem brasileiro, o produto foi criado no Recife, em 1929, pelos engenheiros Amadeu Coimbra, Ernest August Boeckmann e Antônio de Góis. O nome cobogó é resultante da junção das iniciais dos sobrenomes dos profissionais. “No Brasil, vê-se hoje o retorno de cobogós e elementos assemelhados com o crescente número de materiais, formas e texturas, facilitando a execução dos fechamentos alinhada com excelente estética”, afirma Cioli.

O arquiteto Hugo Sasdelli concorda que, além do cobogó, brises, gelosias e buzinotes são elementos brasileiros que são, sim, bem-vindos na arquitetura tropical. “Até mesmo porque os modernistas deixaram para nós uma verdadeira escola, com a mais diversa aplicação desses materiais, e isso influenciou várias gerações de arquitetos e influencia até hoje. Acho que pelo fato de nunca ter tido outro tipo de arquitetura brasileira com repercussão tão forte.” Relativo à aplicação deles, Hugo cita que os brises são usados horizontalmente e verticalmente para controle da luz solar em fachadas nas quais a incidência do sol está presente na maior parte do dia. Eles podem ser feitos de vários materiais, desde madeira (que deve ser certificada) a PVC.

VENTO Já as gelosias e treliças ficam muito bem como um sistema de ventilação em esquadrias e divisórias, como sugere Hugo Sasdelli. “Além disso, temos vários materiais, como telhas próprias para fazer uma cobertura verde com sistema de irrigação acoplado, ladrilhos hidráulicos que têm uma referência bem brasileira e as mais diversas opções de pastilhas e revestimentos cerâmicos com design diferenciado.” Quanto aos cobogós, com uma variedade cada vez maior de designs, cores e formas, conforme a designer de interiores Valéria Leão, podem ser usados em locais onde se deseja o controle da luz solar e uma ventilação permanente. “Os painéis em cobogós permitem um jogo de luz e ventilação e têm grande importância no cenário da arquitetura na definição de fachadas, volumetrias e fechamentos”, indica.

Vegetação essencial
Quando se pensa em arquitetura tropical, não se pode esquecer da presença do verde. Casa brasileira tem de ter jardim, que pode ser das mais diversas formas: vertical, horizontal, flutuante. Se a intenção é um jardim mais tropical, existem algumas espécies que acho que têm muito essa cara, como as samambaias, as alpinas, as bromélias, a forração de clorofito, palmeiras, brinco-de-princesa, ripsális e trapoeraba roxa. Alguns especialistas destacam a necessidade de utilizar mais as plantas nativas e frutíferas tropicais, principalmente, para ter a natureza mais próxima do projeto. Entre elas estão o liconia, o cambará, a pitanga, o genipapo, a jussara, o açaí, a amora, a jabuticaba, a orquídea, a samambaia e o buiriti.

As designers de interiores Valéria Leão e Marli Viana recomendam a escolha de matéria-prima nacional para os itens que vão decorar os ambientes  - Eduardo de Almeida/RA studio As designers de interiores Valéria Leão e Marli Viana recomendam a escolha de matéria-prima nacional para os itens que vão decorar os ambientes


VALORIZAR O NACIONAL

Mesmo com todos esses recursos, investir na brasilidade na arquitetura implica o reconhecimento da identidade de um determinado local, personalidade, história e cultura, como acredita a designer de interiores Marli Viana. “Ou seja, privilegiar produtos genuinamente nacionais, com critérios, e saber conjugar mobiliários contemporâneos com materiais inusitados”, diz a designer. Para fazer isso, Valéria Leão sugere o uso de sobras de madeira descartada pela natureza ou provenientes de área de manejo. “Fabricar peças chave para ambientes que, além de brasilidade, favorecem a sustentabilidade. Os critérios se estendem de acordo com cada profissional, de suma importância para execução de uma obra”, aponta.

Como exemplos de materiais a serem utilizados, Valéria cita o bambu, que tem um potencial construtivo bastante rico, segundo ela. “Com possibilidades construtivas com inúmeras formas de encaixe e junções”, explica a designer de interiores. Marli Viana também sugere a madeira, que tem excelentes qualidades ambientais, tem baixa energia solar incorporada se comparada ao aço, alumínio e concreto. “Entre os materiais utilizados na construção civil, é o único renovável.”

"Vivemos em um país de clima tropical, cada vez mais quente, necessitando ainda mais, a cada dia, de uma postura sustentável no modo de projetar e também no modo de viver" - Hugo Sasdelli, arquiteto


O que importa é definir com o profissional responsável pelo projeto o que vai ser utilizado e recorrer à mão de obra específica. Mas, de acordo com o arquiteto, ao se levar a brasilidade para dentro de casa, não se pode esquecer de fazer com que ela tenha cara de lar, proporcionando aconchego, independente do estilo, do mais despojado ao mais sofisticado. “A casa brasileira é para ser usada. Não é casa com cara de mostra ou museu, aquela coisa milimétrica”, pondera.

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Se por um lado ainda não são completamente difundidas, as novas práticas arquitetônicas no Brasil têm sido cada vez mais adaptadas às questões climáticas e cabe ao consumidor buscar conhecê-las e solicitá-las ao profissional responsável pelo projeto. “Vivemos em um país de clima tropical, cada vez mais quente, necessitando ainda mais, a cada dia, de uma postura sustentável no modo de projetar e também no modo de viver”, analisa Hugo Sasdelli.

SERVIÇO PROFISSIONAL Para Cioli Stancioli, boas ideias e conhecimento sempre geram boas escolhas. Esses fatores, aliados à necessidade do consumidor, têm maior chance de atingir um resultado satisfatório. “No desenvolvimento de qualquer projeto, diálogo e relacionamento aberto e de confiança entre cliente e profissional encaminharão sempre às melhores decisões”, considera o arquiteto. Por isso, na hora de contratar, é preciso ter referências do profissional, pois a ele cabe reconhecer o ambiente onde será projetado o espaço para o sucesso do trabalho. De acordo com Hugo Sasdelli, o profissional tem de saber onde abrir e fechar os espaços, criando ambiente luminoso e com boa circulação de ar. “Para garantir conforto térmico, assegurar a umidade por meio de elementos que a controlem e inserir a vegetação: tudo isso faz com que tenhamos os melhores resultados”, acrescenta.

Eduardo de Almeida/RA studio

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creato - 26de Março às 15:33
A Creato Consultoria compartilha da ideia de que uma boa arquitetura deve ser uma arquitetura pensada de maneira correta, desde a escolha do terreno até o estudo do clima!

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