Arquitetura universal promove livre acesso para todos em projetos públicos e residenciais

Acessibilidade é algo cada vez mais buscado nos espaços públicos. Mas essa preocupação, que envolve conceitos como ergometria, pode e deve ser levada para dentro das casas

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postado em 15/04/2012 09:44 / atualizado em 15/04/2012 10:49 Júnia Leticia /Estado de Minas

Eduardo de Almeida/RA Studio

Tornar os espaços acessíveis a todos é uma necessidade, principalmente tendo em vista o envelhecimento da população. Além disso, é preciso criar condições para que pessoas com algum tipo de dificuldade de locomoção sejam tratadas com respeito e tenham assegurado o direito de ir e vir com segurança e conforto. Para que isso seja alcançado, os recursos da chamada arquitetura universal são essenciais. O conceito não deve ficar restrito a espaços públicos. Em casas ou apartamentos, é fundamental promover transformações que possibilitem o trânsito de qualquer pessoa.

“Com esse objetivo, produtos e ambientes são criados para que possam ser, indiscriminadamente, usados por todas as pessoas. Assim, não há necessidade de qualquer tipo de adaptação ou projeto especial para sua utilização”, explica a arquiteta Sandra Diniz. Mas o assunto é mais abrangente, segundo ela. Além da acessibilidade, a arquitetura universal visa até mesmo o conforto térmico do espaço. “O assunto é muito vasto e contempla aspectos como ergometria, conforto visual e sonoro, entre outros, criando espaços com iluminação adequada à sua função”, comenta Sandra.

Para a elaboração do projeto, a NBR 9050 é a norma brasileira que auxilia na elaboração dos projetos e no entendimento da ergonomia para todos, segundo a arquiteta Flávia Soares. “Os princípios que direcionam uma arquitetura para todos partem da ergonomia, seja das dimensões do nosso corpo, da cadeira de rodas ou mesmo tátil”, acrescenta. Segundo o professor do curso de arquitetura e urbanismo da Universidade Cidade de São Paulo (Unicid), Luiz Marcos Cintra, a arquitetura universal teve origem na década de 1960, nos Estados Unidos, para promover a inclusão de soldados mutilados na guerra do Vietnã. Vinte anos depois, com a adequação dos espaços urbanos, o tema acabou evoluindo e foram criados os conceitos do desenho universal. “Que consiste na criação de espaços ou produtos destinados para qualquer pessoa, independentemente das condições físicas e sensoriais”, explica.

 

A arquiteta Flávia Soares diz que é preciso atenção ao espaço que deve ser reservado à circulação e à distância entre as portas - Eduardo de Almeida/RA Studio A arquiteta Flávia Soares diz que é preciso atenção ao espaço que deve ser reservado à circulação e à distância entre as portas

 

A partir daí, surgiram projetos, recursos e soluções que possibilitam construções acessíveis. “Ao projetar, precisamos levar em conta dois aspectos: a segurança e a autonomia do usuário. Generalizando, as pessoas que necessitam de maior área espacial são as que utilizam cadeira de rodas. Quando projetamos pensando nesse usuário, atendemos à maioria, que inclui idosos, obesos, gestantes, pessoas de baixa estatura, entre outros”, explica Luiz Cintra.

Apesar de ainda haver muitas barreiras para esse tipo de público, a legislação tem contribuído para amenizar o problema, conforme a arquiteta Ângela Roldão. Isso tem feito com que os projetos venham atendendo os princípios da arquitetura universal. “As construções novas não são aprovadas se não estiverem de acordo com as normas”, diz, citando a NBR 9050.

REGRAS

 

A arquiteta conta que a legislação é severa nos códigos de obras das grandes cidades no que se refere à acessibilidade. “Mas falta conscientização das pessoas e das instituições a respeito da legislação e esforço dos profissionais da área para que tudo isso seja, de fato, aplicado. Só quem precisou usar muletas por algum tempo e ficou parado na porta de um banheiro de um restaurante, cuja porta tinha mola, sabe da necessidade da arquitetura universal”, observa Ângela.

 


Apesar da legislação, a arquiteta Sandra Diniz ressalta que a acessibilidade não deve se restringir aos espaços públicos. Mesmo nos projetos residenciais populares é imprescindível proporcionar o acesso às pessoas com limitações físicas. “Para isso, o projeto deve contemplar aspectos como portas internas com largura mínima de 70cm, pisos antiderrapantes em área molhadas, rampas com ângulos que obedeçam às normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).”

 

PRATICIDADE DENTRO DE CASA
Medidas simples podem contribuir muito para que moradores com limitações de movimentos possam circular em segurança. Especialistas dão dicas de como instalar itens essenciais no imóvel

 

Para que uma residência seja acessível, há várias soluções, algumas até mesmo muito simples, mas que, por falta de conhecimento, deixam de ser empregadas. Para cada cômodo da casa ou apartamento, há um recurso que pode ser empregado. Basta contar com assessoria adequada para colocá-lo em prática. Na sala, a arquiteta Flávia Soares diz que é preciso ter atenção ao espaço que deve ser reservado à circulação entre os mobiliários. “Além disso, é necessário observar a proteção nas paredes onde a cadeira de rodas encosta, o tipo das maçanetas utilizados e ter proteção metálica nas portas.”

Em relação ao quarto, vale a mesma regra no que se refere à circulação. Além disso, o posicionamento de armários deve possibilitar o alcance do usuário. Sua instalação em locais mais baixos também é muito importante na cozinha, conforme explica Flávia. O mesmo vale para a colocação de bancadas e torneiras, que devem ter acionamento de alavanca.

Assim como na cozinha, as barras de apoio são um importante recurso a ser utilizado no banheiro, que deve ter portas de 80cm de largura que abrem para fora. “Além disso, é necessário haver uma bacia sanitária especial e, na área do chuveiro, um assento e barras de apoio”, diz Flávia, ressaltado a importância de preservar espaços de circulação e para a transferência, e o uso de piso antiderrapante.

 

Para a arquiteta Ângela Roldão, a legislação tem contribuído para garantir o direito de livre trânsito a moradores e pedestres - Eduardo de Almeida/RA Studio Para a arquiteta Ângela Roldão, a legislação tem contribuído para garantir o direito de livre trânsito a moradores e pedestres

 

Os passeios, que são de responsabilidade dos moradores do imóvel, devem ter rampas na faixa de pedestre, com inclinação de 8,33%, e orientação podotátil (revestimento em alto relevo) para acesso de pessoas com dificuldade visual. “Já na garagem, as vagas especiais necessitam de espaços para circulação das cadeiras de rodas e para transferência”, acrescenta Flávia.

Ao fazer projetos, o professor da Unicid Luiz Cintra diz que é preciso levar em conta algumas dicas básicas, tendo por base os cadeirantes, que são as pessoas que necessitam de maior área espacial. “Uma pessoa em cadeira de rodas ocupa, espacialmente, uma área correspondente a 80cm de largura por 1,20m de comprimento. Devemos prever que ela deve entrar no ambiente e dar um giro de 360 graus. Para isso, é necessário que tenha uma área livre com diâmetro de 1,5m”.

Com relação à altura, Luiz Cintra conta que tudo que estiver entre 80cm a 1,20m é considerado acessível, de fácil alcance manual e visual. “Também devem ser previstos interruptores de luz próximos às camas e luz de emergência e noturna nos corredores, banheiros e cozinha. Além disso, as maçanetas devem ser de alavanca ou alça.” Outro cuidado muito importante é com desníveis ou degraus, que devem ser evitados, sendo substituídos por rampas. “O caminho a ser percorrido por pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida deve ser livre de barreiras. No caso das portas, elas devem ter um vão livre maior ou igual a 80cm”, indica Luiz.

 

Instalação de barras de apoio dentro do banheiro, inclusive no interior do box, é necessária para evitar acidente graves - Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press - 16/04/2008 Instalação de barras de apoio dentro do banheiro, inclusive no interior do box, é necessária para evitar acidente graves

 

FACILIDADE

A escolha correta do que comprar para decorar a casa faz uma grande diferença. “Prever a utilização de carrinho com rodízio para ajudar a mover utensílios e vasilhas da cozinha para outros ambientes a levar comida à mesa e recolher os pratos e talheres usados. Evitar tapetes soltos. Quando necessários, devem estar embutidos no piso ou com as bordas coladas e não devem apresentar saliência superior a 5mm”, explica o professor.

A arquiteta Sandra Diniz diz que primeira solução indicada por ela é usar maçanetas que podem ser acionadas sem o uso das mãos, evitando, por exemplo, as de formato redondo. “Com relação ao acesso a interruptores, eles devem ser instalados a uma altura máxima de 1,10m do piso.” Na cozinha, as bancadas devem ter, no máximo, 90cm e, nos armários, a profundidade não deve ser superior a 55cm. “A altura do armário superior, bem como a prateleira inferior do armário de baixo, devem ser alcançadas com facilidade. A torneira também deve ser acionada sem esforço e o piso tem de ser antiderrapante.”

 

 

A arquiteta Sandra Diniz diz que a chamada arquitetura universal guia a criação de produtos e ambientes para que todas as pessoas possam circular com segurança e conforto - Eduardo de Almeida/RA Studio A arquiteta Sandra Diniz diz que a chamada arquitetura universal guia a criação de produtos e ambientes para que todas as pessoas possam circular com segurança e conforto

 

SOLUÇÕES COM MAIS ECONOMIA

De todos os obstáculos a serem vencidos por pessoas com limitações físicas, o maior deles, sem dúvida, é a escada. Por isso, Sandra Diniz ressalta a importância da construção de rampas de acesso. Entretanto, se não puder ser evitada, deve proporcionar conforto. “Para tanto, fórmulas e normas devem ser observadas. O uso de guarda-corpo e corrimão, conforme as normas, também é fundamental”, diz.

A arquiteta chama a atenção para o emprego de material antiderrapante em vários locais, dentro e fora das casas. Nas calçadas, por exemplo, quando há necessidade de degraus, eles devem observar as recomendações da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), assim como no caso de rampas. “Mas, em alguns casos, para facilitar o acesso à casa é necessário a instalação de um elevador doméstico.

Eduardo de Almeida/RA Studio


Soluções como essas, ao contrário do que se pode pensar, não constituem um grande investimento no projeto. “Segundo dados não oficiais, há um acréscimo no orçamento final da obra entre 2% e 8% quando projeto é concebido prevendo os princípios de desenho universal e a acessibilidade”, comenta a professor Luiz Cintra.

Para quem quer investir na ideia agora, Flávia Soares indica valores do projeto de uma maneira geral, já que cada caso exige uma determinada especificação. “Fica bastante complicado estimar o preço da execução de um projeto. Mas a elaboração de um simples pode ficar a partir de R$ 900.”

Comparado com um projeto que não tenha a acessibilidade como meta principal, o trabalho não fica mais caro que um que busque estas soluções. O que difere um do outro é a necessidade de maior espaço disponível, no caso da arquitetura universal. “E quando as premissas de um projeto universal são pensadas num projeto em primeira instância, evita-se custos posteriores”, explica Flávia.

Com relação às soluções que não demandam grandes gastos e contribuem muito para a acessibilidade, Flávia cita a instalação de barras de apoio nos banheiros. “Auxiliam pessoas idosas, são medidas simples e que podem custar em torno de R$ 500. Elas já ajudam bastante a evitar acidentes.”

Eduardo de Almeida/RA Studio

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Lucas - 15 de Abril às 12:34
essa última foto aí de acessível não vejo nada! que burro da zero para o arquiteto!

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