Arte na decoração

Arte popular brasileira conquista espaço no mundo do design de interiores

Xilogravuras ganham destaque estampadas na parede, em almofadas ou cerâmicas. E peças artesanais conquistam espaço cada vez maior na composição dos ambientes.

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postado em 05/06/2012 15:03 Vanessa Aquino /CorreioWeb
Xilogravuras, como as de J.Borges, aparecem como elemento de destaque em projetos de decoração - Jeová Franklin/Arquivo Pessoal Xilogravuras, como as de J.Borges, aparecem como elemento de destaque em projetos de decoração

Jeová Franklin/Arquivo Pessoal
A partir de uma matriz de madeira, nascem os traços firmes da xilogravura. Depois, como um carimbo, a madeira deixa as marcas de tinta no papel. Esta arte milenar, originária do oriente, ganhou visibilidade no Brasil por meio dos folhetos de literatura de cordel do Nordeste e, atualmente, desperta interesse cada vez maior da classe média brasileira. As xilogravuras tomaram conta das casas, ganharam destaque em quadros e estampam almofadas e cerâmicas. A arte, caracterizada pelos traços marcantes, acaba cumprindo o papel de reforçar a valorização de elementos regionais no universo do design de interiores.

O jornalista, pesquisador e colecionador de xilogravuras, Jeová Franklin, conta como a arte despertou a importância da cultura popular no Brasil. Segundo ele, foi em Pernambuco, por causa do interesse do pintor Ivan Marquetti pelas gravuras de J.Borges, que ilustravam os folhetos de cordel, que a xilogravura ganhou os novos formatos que hoje são usados para decorar residências. De acordo com Franklin, a partir deste episódio, em 1970, a xilogravura ganhou repercussão. “Ele [Ivan Marquetti] foi a Bezerros (PE) e falou para o J.Borges que queria as gravuras maiores que a capa de cordel. E foram feitas algumas para o Ivan, que depois levou para o Ariano Suassuna. Ariano, quando viu, ficou entusiasmado e reuniu os jornalistas que estavam no Recife e disse ‘vejam a maravilha da arte popular!’”, relata.

Adesivo da Shopkola Adesivo da Shopkola "Árvore de Cordel" ganha destaque na parede
O arquiteto Hélio Albuquerque acredita que, pela possibilidade de multiplicidade – já que a mesma figura pode ser impressa várias vezes, por meio de uma matriz em madeira -, a xilogravura torna-se uma opção, por vezes, mais econômica para quem quer uma obra de arte na parede, mas não pretende investir um valor alto para este fim. “Isso em hipótese alguma desqualifica ou desmerece a obra, apenas a torna mais tangível”, defende.

Arte popular em foco

De acordo com Albuquerque, não existe uma situação específica para que os elementos da arte e artesanato popular sejam inseridos na decoração, já que os projetos são feitos para se adequar ao gosto do cliente. “Temos que avaliar todo o contexto que envolve esse processo. A origem e os hábitos de um cliente devem ser levados em consideração na hora de decorar”, explica. Hélio acredita que é possível decorar com peças regionais sem transformar o ambiente em um conjunto temático. “A arte popular é extremamente rica e possui elementos de absoluto bom gosto, às vezes até muito sofisticados por sua concepção e abordagem. Saber inserir objetos e adornos em uma decoração, sem que se torne um espaço temático, é um trabalho que exige experiência profissional e olhar crítico de quem o faz”, constata.
Peças de decoração Mambembe, de Mayra Magalhães, inspiradas no universo do cordel e de Alice no País das Maravilhas - Mayra Magalhães/Divulgação Peças de decoração Mambembe, de Mayra Magalhães, inspiradas no universo do cordel e de Alice no País das Maravilhas

O profissional destaca que, como em toda manifestação artística, a arte regional também possui elementos de profundo bom gosto e valor, mas o contrário também pode acontecer. “Cabe um olhar crítico, quase técnico, para saber direcionar o objeto certo para o espaço adequado. Exageros podem acontecer independente de arte popular ou não. Mais uma vez, o bom senso deve aparecer em benefício da harmonia desejada”, orienta.
O designer Marcelo Rosembaum buscou referências nos traços da xilogravura para criar as estampas das O designer Marcelo Rosembaum buscou referências nos traços da xilogravura para criar as estampas das "Almofadas de Cordel", exclusivas da Tok&Stok

O arquiteto lembra que, no Brasil, há alguns incentivadores do uso da arte popular na decoração, como é o caso da arquiteta pernambucana, já falecida, Janete Costa. Conhecida pelo profundo conhecimento estético da arte e do artesanato regional, a arquiteta acreditava que estes elementos pudessem ser a “resposta para o fim da miséria no Nordeste brasileiro”. Para ela, a arquitetura deveria cumprir papel social e, por isso, sempre procurou inserir peças artesanais nos projetos. Janete costumava dizer que “o artesanato aquece e embeleza o ambiente. Não se trata apenas de uma alternativa barata”.

Aconchego humano do regional

Para as arquitetas Fabianna e Michelle Manzur, os elementos regionais, usados com bom senso, podem humanizar os ambientes - D2M Arquitetura/Divulgação Para as arquitetas Fabianna e Michelle Manzur, os elementos regionais, usados com bom senso, podem humanizar os ambientes
Para as arquitetas Fabianna e Michelle Manzur, os elementos regionais, usados com bom senso, humanizam os ambientes, pois trazem aspectos da cultura de uma comunidade, além de reforçarem traços da identidade do morador da casa. “Em geral, dão um toque bem particular, que pode ser rústico, elegante e até divertido. Ambientes neutros e impessoais ganham vida com a peça regional apropriada. Sendo peças únicas, artesanais, feitas com materiais naturais elas amenizam as linhas retas do mobiliário e conferem ao ambiente uma sensação de aconchego”, explica Fabianna.

As profissionais acreditam que, quanto mais industrializados vão ficando os objetos do uso diário, mais as pessoas sentem necessidade de terem peças artesanais. “É como se precisassem humanizar o ambiente. Sentem falta de algo que personalize, que conte uma história, seja de uma região, de uma viagem, de um personagem ou que represente algo de si próprio”, esclarece Michelle.

Segundo as arquitetas, os elementos regionais são bem-vindos tanto em ambientes com apelo rústico quanto nos mais contemporâneos. “Um bauzinho de vime no canto da sala, uma escultura de ferro oxidado, um banquinho de madeira, uma xilogravura na parede. Se a intenção é um ambiente mais rústico, as peças regionais podem ser mais exploradas. Se o espaço for mais contemporâneo, elas também são bem vindas, mas é importante ter equilíbrio: usar poucas peças em locais de destaque de forma a aquecer o ambiente”, orienta.

Tags: design

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