Decifrando personalidades

Decoração afetiva percebe a individualidade de cada morador para uni-las em um único espaço

O design de interiores vai além dos conceitos de melhorar o aproveitamento dos ambientes

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postado em 26/02/2018 13:49 / atualizado em 26/02/2018 14:02 Joana Gontijo /Lugar Certo

Espaço criado pela designer Fabiana Visacro foi pensado de acordo com a faixa etária, visando estimular o crescimento da criança - Osvaldo Castro/Divulgação Espaço criado pela designer Fabiana Visacro foi pensado de acordo com a faixa etária, visando estimular o crescimento da criança

Viver, sentir, experimentar a casa. Deixar nascer laços duradouros com o lar, ressignificar o morar a partir da singularidade, acolher o jeito de ser peculiar. O design de interiores ganha uma importância que ultrapassa os conceitos básicos de melhor aproveitamento dos ambientes. É a decoração afetiva, que se une à psicologia ao fortalecer os encontros, observando os traços da personalidade para alçá-la a novos patamares, no intuito de criar o coletivo. Tendência ainda pouco explorada, a ideia é oferecer aos usuários prazer e autonomia a partir da concepção de um universo particular que permita o crescimento e aprendizado individual e, ao mesmo tempo, otimizar a convivência com os demais. A premissa é explorar o que é específico para chegar ao arranjo compartilhado, respeitando as características de cada um. Em consequência, o habitar se transforma em um passeio único e caloroso.

A designer de interiores e psicóloga Fabiana Visacro explica que o projeto afetivo respeita a maneira de viver de cada um, compreendendo e fazendo decifrável o lugar que cada pessoa ocupa na família, no lar. De acordo com a profissional, o objetivo é conceber recintos legítimos e representativos, fazendo com que as pessoas percebam que o espaço físico é um retrato de sua identidade e do modo como constrói as relações. "A proposta é individualizar para coletivizar", diz. "Buscar a afetividade da obra permite transformar a morada em uma fortaleza, em um lugar para se sentir completo, salvo e confortável, tornando o usuário mais consciente de si mesmo", pontua a especialista.

Essa vertente da decoração, continua Fabiana, estabelece constantemente a conexão do morador com sua história, com seus valores. O princípio elementar para chegar à harmonia do conjunto é avaliar com afinco o perfil do cliente. Neste ponto, os conhecimentos que ela detém da psicologia ajudam bastante na hora de dosar os componentes da ambientação, atentando para a introdução acertada de itens que carreguem lembranças e memórias. Para tanto, é fundamental avaliar qual a espécie de ambiente com a qual se está trabalhando. "Esse tipo de lembrança é uma recordação muito íntima? É uma coisa que eu quero só pra mim e, portanto, será bem empregada no meu quarto ou no meu closet? Ou é algo que eu queira que as pessoas saibam e o melhor seria colocá-la na sala? O importante é saber como e onde retratar essas memórias. Assim, introduzimos o conceito da decoração afetiva sem, contudo, perder a harmonia", ressalta a designer.

Unindo os conceitos da psicologia e da decoração, Fabiana Visacro mostra como a decoração pode ter uma proposta mais afetiva, única e acolhedora - Osvaldo Castro/Divulgação Unindo os conceitos da psicologia e da decoração, Fabiana Visacro mostra como a decoração pode ter uma proposta mais afetiva, única e acolhedora

Para Fabiana, usar o know-how da psicologia para projetar espaços afetivos resulta em mais sensibilidade e eficácia. “A proposta é aproximar as pessoas um pouco mais da sua própria história, permitir que elas descubram o quê as faz felizes e representar isso no dia a dia como forma de restaurar, recuperar, vitalizar sua rotina e suas relações familiares, tornando-as mais potentes. Por isso, o conhecimento em psicologia é um diferencial”, destaca a profissional. Para chegar a uma orientação sobre a composição a ser perseguida, tudo parte da escuta, segundo Fabiana Visacro. O trabalho de um psicólogo começa aí, assim como o do profissional de decoração. Esse processo requer perspicácia e atenção, já que muitas vezes o cliente tem demandas sobre as quais ele mesmo não se dá conta.

IDADES ESPECÍFICAS

Se crianças e adolescentes integram a família, eles são parte importante do processo da decoração afetiva, cita Fabiana Visacro, e o ideal é respeitar sua independência. "Como esperar organização e concentração se isso não é oferecido para eles? É preciso ter um suporte. Criar espaços atrativos para que os adolescentes sejam induzidos a dar sua cota de colaboração em casa, além da designação de um local para que outras pessoas possam participar mais efetivamente no dia a dia desse jovem. Para as crianças, o intuito é idealizar um ambiente onde elas realizem as atividades rotineiras, como estudar, de uma forma mais autônoma, preservando o tempo certo para as brincadeiras. Isso também melhora o relacionamento familiar”, destaca a designer.

É relevante, ainda, atualizar os espaços de acordo com as necessidades de cada faixa etária. "Com isso, o quarto vai assumindo um novo posicionamento na vida, estimulando o crescimento da criança", pontua. O casal também recebe cuidado especial com a decoração afetiva. O dormitório é pensado para que seja um verdadeiro refúgio. Assim, ao fechar a porta, os dois se esquecem de todos os problemas e podem estar mais próximos e íntimos. Nas composições decorativas com esses preceitos, a presença de áreas de armazenamento é primordial, afirma Fabiana.

Neste projeto assinado por Fabiana Visacro, a individualidade do casal foi garantida por meio dos armários e cubas individuais - Henrique Queiroga/Divulgação Neste projeto assinado por Fabiana Visacro, a individualidade do casal foi garantida por meio dos armários e cubas individuais

Elas possibilitam organização e logística que tornam a rotina mais simples, afastando o estresse gerado por bobagens. "Um casal que sai cedo para trabalhar não precisa mais disputar espaço se houver um armário e uma cuba para cada um no banheiro, que separe e organize suas coisas. Dessa forma se respeita a individualidade para o bem coletivo”, exemplifica. Esses pontos de armazenamento podem estar presentes em qualquer ambiente da casa, sempre usados com critério para fugir de conflitos, mesmo que muita gente não reconheça sua importância. "Elementos individuais muitas vezes servem para manter a privacidade de cada um na vida a dois", pondera Fabiana.

Os conceitos da decoração afetiva podem estar em todos os ambientes da casa. Fabiana faz questão de dizer que não há uma receita pronta - para cada pessoa, existem especificidades, através das quais passará a opção por determinados tipos de acabamentos, materiais, móveis, cores, adornos e demais componentes. No fim, o efeito é a diminuição do cansaço e os benefícios do autoconhecimento, da identificação com o espaço e a sensação de bem-estar.

 

Idade, estado civil, condição de vida, escolhas, perfil familiar. Não importa, a base é só uma. A decoração afetiva trabalha com o indivíduo, salienta Fabiana. Para emergir no planejamento, explora nesse indivíduo o entendimento dele, as marcas que traz consigo, o que lhe guia ao longo do tempo. "Interessante é buscar o que existe de mais importante para aquele cliente, seja uma criança, um adulto ou um idoso, e refletir isso no cômodo. O princípio é ter identificação, é extrair do morador algo para dar sentido ao ambiente, ao mesmo tempo em que esse projeto vai alimentá-lo com o que faz sentido para ele".

Para quem aposta na decoração afetiva, outro ganho é uma conexão fortalecida como o que é e foi, com a história que se está construindo. "Isso gera autonomia, valorização e o sentimento de adequação, de estar em um espaço próprio, que foi feito totalmente pensando em você e para você", complementa Fabiana Visacro. O olhar cresce para o sentimento de se ajustar no mundo como um todo, alcançando relações interpessoais mais saudáveis. 


Registros pessoais

Para a arquiteta Glaucia Britto, a decoração deve ter a cara de quem vive no espaço
 - Jomar Bragança/Divulgação Para a arquiteta Glaucia Britto, a decoração deve ter a cara de quem vive no espaço

Na opinião da arquiteta e designer de interiores Glaucia Britto, a decoração tem que ter a cara de quem vive no espaço. Para ela, a essência da pessoa deve estar registrada ali, e os ambientes são feitos para serem vividos e sentidos como se fossem um "pacote de uma vida". "Decoração afetiva é isso. Tudo que envolve lembrança, sentimento, o que ativa os sentidos. É misturar estilos, deixar experimentar, mudar, fazer brotar o espírito de um lar. A casa fala muito sobre a personalidade do morador. O modo de vida está representado não apenas na escolha do mobiliário, como também em cada detalhe que compõe o ambiente", frisa.

Saber como e onde retratar as memórias é importante para harmonia do ambiente - Jomar Bragança/Divulgação Saber como e onde retratar as memórias é importante para harmonia do ambiente

A forma de colocar os livros na prateleira, o arranjo de flores que renova o astral, a distribuição das peças decorativas, uma mesa antiga ao lado de um sofá moderno, quadros na parede, tecidos, esculturas, coleções, retratos, itens de viagem. Tudo preenchido por gente, por objetos, por histórias, continua Glaucia. E essas histórias, acrescenta, traduzem experiências e recordações."A decoração afetiva ganha muito mais significado. Além da estética, consegue transformar a vida das pessoas despertando emoções e, aí sim, faz sentido. Uma casa tem que ter vida", pontua a arquiteta.

Glaucia Britto afirma que a decoração afetiva é sinônimo de um lar de verdade - Jomar Bragança/Divulgação Glaucia Britto afirma que a decoração afetiva é sinônimo de um lar de verdade

Para Glaucia, a morada precisa ser recheada de momentos inesquecíveis. "A decoração afetiva está ai para emocionar. Os ambientes devem unir aconchego, conforto. E conforto é você estar cercado por tudo aquilo que você ama. Quem vive em uma casa precisa estar feliz aí. A decoração afetiva é sinônimo de um lar de verdade”, finaliza.

Tags: decoração afetiva individualidade coletivo

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