Morar bem é... Uma narrativa individual

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postado em 18/11/2007 16:52
Gladyston Rodrigues/Produtora SE7
Marcos Nobre de Lima*

O que é preciso para se morar bem? Esse conceito bastante subjetivo pode indicar tendências das mais variadas. Muitos o associam, erroneamente, às características físicas dos espaços. O termo morar é bem mais abrangente do que seu significado direto de ocupar um lugar. Assumindo uma rica carga simbólica, representa muito mais que um simples espaço físico. É a transcendência da realidade direta do objeto, da edificação em si.

Uma casa é um espaço-útero, cheio de segredos e emoções: nosso lugar, nosso ninho, nosso abrigo, nosso reduto sagrado na medida que cria um centro, algo maior que será palco de nossas alegrias e tristezas, ambientará nossas conquistas e medos, guardará nossos segredos. Trata-se de algo maior, mais amplo e abrangente, que não se refere apenas ao conhecimento pragmático, mas sim à sua associação aos questionamentos relativos ao uso e significado de cada ambiente.

Deve-se pensar, portanto, a forma como vemos e pensamos a moradia. Temos de perceber como os projetos estão incorporados a essa visão ontológica da habitação, ou simplesmente dispondo do conhecido programa das necessidades pré-dimensionadas.

Para entendermos melhor, poderemos considerar que existem dois comportamentos em relação ao morar. O primeiro, que denomino como caixa de morar, representa nada mais que uma soma de metros quadrados, considerando apenas as funções primárias da casa.

O segundo vê a moradia no seu sentido mais pictórico, onde todas as nossas emoções estão presentes, de forma subjetiva. A memória segura o tempo e guarda as imagens de todas as casas que conhecemos. Os ambientes têm proporções bem mais significativas do que seus dimensionamentos espaciais e sua função primária de habitar. Os ambientes aqui falam, traduzindo a história, desejos e anseios de seus moradores.

No mundo atual, entretanto, as casas estão cada vez mais parecidas, não existindo uma identidade com o morador. Isso nos faz pensar que praticamente não existe um estudo específico para cada caso ou cliente. Ao contrário, na maioria das vezes os projetos tratam a habitação como se houvesse apenas um estilo de viver, um único morador, uma única forma de se aprimorar os espaços.

Pessoas têm manias, vontades e gostos diferentes. Todas têm seu conceito de beleza e almejam o belo. Uma das grandes conquistas do mundo contemporâneo é uma certa liberdade nas escolhas que podemos fazer no dia-a-dia. O modismo introduzido no mercado, muitas das vezes imposto ao cliente, não deve representar a única possibilidade de se mostrar in, arrojado, bem informado ou atual. Nossa casa é uma narrativa individual e subjetiva, embora o material que usamos seja social e cultural.

Qual deve ser então a melhor forma de morar? Quais as suas referências estéticas? Pergunto as suas e não as da moda, as da revista de decoração. Certamente, permanece inalterada a busca pela qualidade de vida, seja no interior das mansões com jardins cinematográficos ou nos corredores estreitos das favelas. A questão a ser idealizada vai muito além das condições socioeconômicas; o direito de ser o sujeito do espaço, de imprimir de fato a sua cara e as suas características e vivências na casa. É necessário ousar, arriscar, sair do lugar comum e assumir que, ao compreendermos as diferentes formas de apropriação do espaço e das distintas referências estéticas e culturais, os projetos residenciais serão muito melhores, porque estarão livres de preconceitos e verdades absolutas.

Quando percebemos que a estandartização dos padrões constitui uma das maneiras mais cruéis de repressão e que limita a criatividade e a naturalidade, nos afastaremos das imposições feitas pelos modismos, pela explosão imobiliária ou pela leitura superficial do significado da casa na vida do homem. Sem ostentação, mas com muita pretensão, conseguiremos alcançar ambientes dignos e solenes, nos quais a beleza e o estilo são conquistas cotidianas que passam por questões éticas, políticas, afetivas e sexuais. Teremos estilo. Estaremos criando um morar com narrativa pessoal que ultrapasse as fronteiras da casa. Seremos nós mesmos.

* Arquiteto urbanista especialista em design de interiores e cultura, professor no Centro Metodista de Minas Izabela Hendrix
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