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Transpiração e inspiração

Arquitetura de cada instalação do Parque Olímpico foi tratada de forma diferenciada,a partir dos mesmos princípios geométricos e da repetição de modulações estruturais

Humberto Siqueira
Os sócios Marcelo Fontes, Bruno Campos e Silvio Todeschi são responsáveis pelo projeto arquitetônico - Foto: Jair Amaral/EM/D.A Press
Com o direito de organizar as Olimpíadas pela primeira vez, o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) tem ainda a oportunidade de deixar um legado ao esporte brasileiro e à cidade. O Parque Olímpico, como principal obra dos jogos, foi concebido pela BCMF Arquitetos para se transformar em centro de pesquisa e treinamento para atletas de alto nível do Brasil e América Latina depois do encerramento das competições.

Pré-requisitos determinados pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) e de estratégias definidas pelo COB junto aos três níveis de governo foram rigorosamente adotados. "Dentro do Parque Olímpico, onde serão disputadas 13 modalidades, a arquitetura de cada instalação foi tratada diferenciadamente, mas a partir dos mesmos princípios geométricos e da repetição de modulações estruturais. Isso garantiu uma harmonia de ritmos e proporções em instalações com diferentes personalidades, como se fossem todos membros da mesma família de objetos arquitetônicos", frisa Bruno Campos, sócio da BCMF.

Em Deodoro, região em que os arquitetos já haviam desenvolvido o Centro de Tiro Esportivo, Hipismo, Hóquei sobre Grama e Pentatlo Moderno para os Jogos Panamericanos de 2007, serão implementadas as ampliações já planejadas na época do Pan. Uma nova atração será o X-Parque. Um parque de esportes radicais para competições de BMX, mountain bike e canoagem slalom. Acoplado a eles, será construído um clube que posteriormente será destinado ao usufruto da população. "É uma região pobre que vai ganhar muitas opções de lazer. Além de atender a demanda crescente e vocação da cidade para esportes", pondera o também sócio Marcelo Fontes
.

Nem só de locais de competição vive uma olimpíada. A equipe também projetou o Centro Internacional de Transmissão, o Centro de Mídia Impressa, Central de Transporte e Logística, vila dos patrocinadores, hotel, área de convivência para os atletas com restaurantes, lojas, academias, praças, entre outras. O custo total chega a US$ 15 bilhões, sendo metade para as instalações e metade para obras de infraestrutura na cidade.

Por trás da conquista de ver os projetos prontos, aprovados e elogiados, a equipe enfrentou bons desafios. "Tivemos muitas idas e vindas. Tínhamos em mente que não estávamos vendendo arquitetura para o COI, e sim uma olimpíada. Foi necessário pesquisar as normas de cada um dos 40 esportes e exigências de suas respectivas federações. E lidar com um universo enorme de informações técnicas, esportivas e legais ao conceber os projetos, sem deixar que perdessem no bom gosto", pontua Bruno.

RACIONALIZAÇÃO

O fato de muitas estruturas serem temporárias, a exemplo das competições de remo e vôlei de praia, também representa um desafio na opinião da equipe. "Apesar de não serem definitivas, essas estruturas precisam ter qualidade
. Fomos estimulados a pensar em como não gastar muito, mesmo com a necessidade de espaços de alto nível, e como reaproveitar o material posteriormente. Então, haverá materiais que serão reutilizados em escolas e outros espaços públicos. Foram praticamente dois projetos. Um a ser considerado para o uso durante as Olimpíadas e um segundo para o reuso dos materiais após o encerramento dos Jogos", esclarece Bruno.

Até o resultado, foram dezenas de revisões e inspeções do COB e federações internacionais. Muita adequação de diretrizes e ajuste de demandas. "Essa é uma grande diferença de um projeto comum. Geralmente, num edifício residencial, por exemplo, além da diferença de escala e complexidade, definimos tudo e é isso mesmo. Nesse caso, em parceria com os arquitetos do COB, tivemos muito retorno e sugestões. Não eram leigos no assunto. Assim, alcançamos um desfecho. Chegamos a fazer três ou quatro projetos até chegar a consenso sobre o resultado final", enfatiza Silvio Todeschi, sócio do escritório.

Os profissionais, que também trabalham com arquitetura urbana, comercial e residencial, veem nessa experiência uma oportunidade ímpar de exercitar a criatividade e visualização de soluções. "Passamos a enxergar a arquitetura de outra forma. Trabalhamos muito em cima de economia de escala, projetos onde a estrutura se transforma na própria arquitetura, trabalho racionalizado e organizado, evitando acessórios supérfluos com flexibilidade de soluções. Diante da complexidade dos projetos que enfrentamos, vemos a elaboração de um edifício residencial como algo bem mais tranquilo de ser feita, mas possível de uso de todas essas características citadas, criando espaços inteligentes e inusitados", avalia Bruno.