Morada de muitas histórias

Funcionários, em BH, cresceu e se modernizou, mas sem perder a essência

Criado à época da inauguração da capital, o bairro assistiu a expansão dos prédios e do comércio, porém não deixou de lado as origens: ruas arborizadas, imóveis tombados e vizinhança cultural

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postado em 17/02/2018 15:19 / atualizado em 17/02/2018 15:31 Laura Valente /Estado de Minas
Circuito da Praça da Liberdade e entorno, onde praticamente tudo começou
 - Acervo Circuito Liberdade Iepha-MG/Divulgação 
Circuito da Praça da Liberdade e entorno, onde praticamente tudo começou

“Boa parte dos belo-horizontinos mantém uma relação de amor e carinho com o Bairro Funcionários, um dos poucos na Região Centro-Sul em que você ainda caminha por ruas arborizadas e pode observar casas que sobrevivem e revelam a história da cidade. Nem é preciso fazer esforço para imaginar Carlos Drummond de Andrade ou Guimarães Rosa saindo do Colégio Arnaldo e passando por ali na metade do século passado”, poetiza o estilista Ronaldo Fraga, que há pouco mais de um ano escolheu a Rua Ceará para instalar o Grande Hotel, um negócio de conceito coletivo que oferta moda, gastronomia e arte em um mesmo espaço. Não por acaso, instalado em uma casa de 1920, tombada pelo Patrimônio Histórico. “Na realidade, retornei para o bairro onde já havia trabalhado na década de 1990 e pelo qual tenho carinho especial. Hoje, tenho orgulho de mostrar um pouco dessa história para os que chegam aqui e experimentam essa magia que o bairro provoca, de transportar as pessoas para uma atmosfera de outros tempos”, revela.

Grande Hotel, do estilista Ronaldo Fraga, funciona em uma casa tombada pelo patrimônio - Leandro Couri/EM/D.A Press Grande Hotel, do estilista Ronaldo Fraga, funciona em uma casa tombada pelo patrimônio

Concorda a médica Luciana Fernandes. “Nasci no bairro, que amo de paixão e onde moro há 48 anos. É perto de tudo, faz parte da história de minha formação: aqui cresci, me casei e montei meu consultório. A vida corre fácil, pois faço tudo a pé: sacolão, açougue, academia. Aqui temos de tudo: lojas sofisticadas, padarias e consultórios etc. Não precisamos nos locomover para outros lugares e o atendimento é espetacular. Nunca pretendo sair do bairro, com o qual tenho um caso de amor mesmo, é a paixão de minha vida”, derrete-se.

A médica Luciana Fernandes nasceu e ainda mora no bairro: A médica Luciana Fernandes nasceu e ainda mora no bairro: "É a paixão da minha vida"

Um dos mais antigos de BH, fundado na época da transferência da capital a partir da Praça da Liberdade, o Funcionários foi uma região estritamente residencial até há pouco, como revela Ana Luiza Tavares Carvalho, uma das primeiras empresárias a abrir butique no bairro. “Cresci aqui, pois minha família morou a vida toda na Rua Professor Morais. Estudei, virei moça, fiz amigos no bairro. Na minha adolescência, o comércio era bem mais restrito. Havia a Sorveteria São Domingos, por exemplo, que é bem antiga. Mas, há quase 20 anos, quando comecei minha carreira como comerciante, com a venda direta de roupas importadas, como a maior parte das clientes era daqui, abri minha loja na região. E não me arrependo pois, apesar de o bairro não ser reconhecido como centro de compras, com o crescimento da cidade começou a atrair comerciantes e prestadores de serviços de qualidade, reunindo de tudo um pouco. Tanto que dá para fazer diversos programas sem tirar o carro da garagem”, afirma a proprietária da loja multimarcas que leva seu nome, localizada na Rua Piauí.

MIX DE SERVIÇOS

Por falar na Sorveteria São Domingos, instalada em 1934, na então Avenida Paranaúna (hoje Getúlio Vargas), é o atual proprietário, Domingos Dias Montenegro, quem fala curiosidades acerca do bairro. “Achei uma planta antiga de BH, da época em que o bairro se chamava São Domingos, o que faz sentido, de acordo com a lógica da construção da cidade, que deu nomes de santos aos bairros, a exemplo de São Bento, Santa Lúcia, São Pedro, Santa Inês e São Lucas, entre outros. Mas ele ficou conhecido como Funcionários, por ter sido projetado para abrigar residências e moradias dos servidores da administração da nova capital”, diz.

Domingos Dias, dono da Sorveteria São Domingos, diz que viu o Funcionários crescer - Rodrigo Clemente/EM/D.A Press - 3/10/14 
Domingos Dias, dono da Sorveteria São Domingos, diz que viu o Funcionários crescer

O comerciante, que assumiu o negócio do pai na década de 1980, lembra que, aos poucos, o bairro foi crescendo. “Jogava bola nas ruas Santa Rita Durão e Rio Grande do Norte, numa época em que nem o edifício Panorama havia sido construído e de comércio havia a sorveteria e a Padaria Savassi. Aos poucos, outros prédios surgiram, atraindo mais comerciantes e transformando o Funcionários no bairro que é hoje, uma mistura entre residencial, comercial e de prestação de serviços”, resume ele, que recebe gente de toda a cidade na tradicional sorveteria. “Praticamente, nasci aqui e considero o bairro minha casa, onde firmei raiz. Dou voltas a pé, percorro lembranças da minha infância, encontro amigos e tenho a sensação de que ele está rejuvenescendo, sem perder a essência das origens”, finaliza.

Para conhecer o bairro

O Funcionários abriga bares, restaurantes, padarias e outros estabelecimentos que valem a visita. Experimente sair a pé e aproveitar para fazer um passeio, contemplando árvores e imóveis tombados que contam a história da cidade. A seguir, um breve roteiro:

Circuito Cultural
» Onde:
Praça da Liberdade e entorno Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais, Palácio da Liberdade, Arquivo Público Mineiro, Museu Mineiro, Centro de Arte Popular Cemig, Cefart Liberdade, BDMG Cultural, Rainha da Sucata, Espaço do Conhecimento UFMG, MM Gerdau -Museu das Minas e do Metal, Memorial Minas Gerais Vale, Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), Horizonte Sebrae - Casa da Economia Criativa, Casa Fiat de Cultura e Academia Mineira de Letras.

Casa Bonomi
» Onde:
Avenida Afonso Pena, 2.600 Panificadora-conceito e bistrô funciona em um casarão tombado, do início do século 20, sob a batuta de Paula Bonomi, ex-bailarina do Grupo Corpo e apaixonada por pães artesanais. Ela não só trouxe receitas do mundo inteiro para a cidade como fez questão de transformá-las no carro-chefe do cardápio. No almoço, oferece sofisticado menu à la carte.

Grande Hotel Ronaldo Fraga
» Onde:
Rua Ceará, 1.205 Também em uma casa tombada dos anos 1920, o estilista criou um espaço que reúne, além da grife própria, produtos de duas dezenas de hóspedes, de artigos de moda e outros, entre parceiros flutuantes e fixos, incluindo um restaurante/café, uma sorveteria, uma distribuidora de vinhos e uma barbearia.

Sorveteria São Domingos
» Onde:
Avenida Getúlio Vargas, 800 Fundada em 1934, a sorveteria testemunhou o crescimento do bairro e é referência em produção artesanal na cidade, atraindo tanto moradores da região quanto visitantes de fora com a oferta de sorvetes de frutas, castanhas, chocolates e outros sabores.

Imóveis tombados
» O Conjunto Urbano da Praça da Liberdade é tombado, bem como edificações de diferentes estilos arquitetônicos, como o Colégio Sagrado Coração de Jesus, a Escola de Arquitetura da UFMG, a Casa Bonomi, o Colégio Arnaldo e a Escola Estadual Barão do Rio Branco, entre outros.

Recorde de visitantes

 » O Circuito Liberdade, centro cultural criado na Praça da Liberdade com 15 instituições, entre museus, núcleos de cultura e de formação, registrou no ano passado a visita de 1.614.250 pessoas, o maior número desde 2010, quando foi inaugurado. Justifica a atração recorde uma programação diversa, que privilegia atrações gratuitas, a exemplo de exposições, espetáculos de teatro e musicais, seminários, palestras e oficinas, entre outras atividades, para todos os públicos. Os espaços com maior número de visitantes foram o Centro Cultural Banco do Brasil, com mais de 830 mil visitantes – especialmente em função das grandes mostras que integram a programação – e, em seguida, a Biblioteca Estadual de Minas Gerais. Sob a gestão do Instituto Estadual de Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha/MG) desde abril de 2015, o projeto dialoga com o espaço urbano e os diversos grupos artísticos e populares.

Tags: Belo Horizonte funcionários bairro

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