Cuidado com a saúde

É preciso estar atento aos poços artesianos: qualidade da água pode ser questionável

Poços artesianos são mais comuns nos centros urbanos do que se imagina. É importante considerar os cuidados com a potabilidade

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postado em 26/04/2019 12:42 Elian Guimarães /Estado de Minas
Ilustração/EM/Son Salvador

Condomínios e empreendimentos que mantêm poços de água para consumo humano precisam atentar para os cuidados com a potabilidade. Mais comuns do que se imagina, os poços para extração de água estão presentes nos grandes centros urbanos e são uma “mão na roda” para empresas, condomínios residenciais e de lazer, hotéis, clubes, hospitais e shoppings, que têm na água um insumo indispensável e que desejam reduzir custos com a conta no fim do mês. Só em Belo Horizonte e região metropolitana existem 1.788 poços cadastrados no Sistema de Informações de Águas Subterrâneas (Siagas), do Serviço Geológico do Brasil (SGB). No entanto, a qualidade e a destinação da água gerada por essas fontes subterrâneas podem ser questionáveis. Parte da população pode estar consumindo água imprópria, mesmo que a aparência seja límpida.

Poços que serão utilizados para atendimento de demanda de condomínios e empreendimentos devem ser objeto de solicitação de autorização prévia junto ao Instituto Mineiro de Gestão das Águas - Igam, para perfuração e outorga para captação da água. As secretarias de Saúde municipal e estadual, além do Ministério da Saúde, são os órgãos competentes para analisar a qualidade da água para consumo humano. As especificações de parâmetros analisados para atestar a qualidade de água são emitidas por esses órgãos.

O Igam disponibiliza o Sistema de Cálculo de Qualidade de Água - SCQA, ferramenta a ser utilizada por pessoas físicas, principalmente estudantes e comitês de bacias hidrográficas, no desenvolvimento das ações de monitoramento de qualidade da água. Ele armazena dados de qualidade da água desde 1997, quando foi implantado o Projeto Águas de Minas - que é responsável pelo monitoramento da qualidade das águas superficiais e subterrâneas de Minas Gerais.

O SCQA dispõe de uma série histórica da qualidade das águas superficiais no estado de Minas Gerais e promove a análise, tratamento, processamento, difusão e contribuição com o Sistema de Informações de Recursos Hídricos. O Igam, por meio da Gerência de Monitoramento de Qualidade das Águas - Gemoq, é responsável por receber os dados de coleta, conferir e inseri-los no sistema.

A assessoria da Copasa informou que a análise da qualidade da água de poços particulares é de responsabilidade do instalador ou proprietário do poço. Essa análise pode ser contratada por prestadores de serviço específicos.

A Resolução Conama 396, de 2008, do Ministério do Meio Ambiente, trata sobre a classificação e diretrizes ambientais para o enquadramento das águas subterrâneas. No documento, há uma tabela com valores máximos permitidos para os parâmetros necessários para a classificação da água, considerando-se alguns de seus usos, como consumo humano, irrigação e recreação. Para utilizar a água desses poços, amostras devem ser analisadas de acordo com todos os parâmetros constantes na resolução. Com base nos resultados, é possível classificar os tipos de uso da água.

POTABILIDADE

Criada em 2016 para o segmento de saneamento, a Potábel é uma empresa que trata a água, planeja, projeta, constrói e opera sistemas próprios de abastecimento de água. Um de seus clientes é o Aeroporto Internacional de Belo Horizonte, em Confins (MG). “Distribuir água para consumo humano é algo legalmente de extrema responsabilidade, é muito sério”, aponta o engenheiro civil Lucas Figueiredo, especialista em engenharia sanitária da empresa.

A Portaria 2.914/2011, do Ministério da Saúde, define padrões de potabilidade da água e exige planos permanentes de monitoramento. Não basta fazer uma análise pontual de alguns parâmetros; ela precisa ser frequente e contemplar aspectos físico-químicos e microbiológicos. O final do período chuvoso, segundo Figueiredo, é a melhor época para fazer a análise da água, cujos parâmetros vão depender do porte de consumo. São dezenas de quesitos a serem avaliados, e quanto maior a dimensão da rede de abastecimento, maior o número de análises a serem feitas.

Os municípios de Belo Horizonte e Nova Lima são exemplos de locais onde existe água subterrânea abundante, especialmente em pontos mais baixos, vizinhos de cursos d´água. Mas a proximidade com rios, lagoas e córregos urbanos pode trazer compostos orgânicos e contaminantes, como bactérias, coliformes e até metais pesados. “Apesar de parecer óbvio, há condomínios usando a água do poço sem se informar sobre a qualidade dela. Chega a ser uma ingenuidade usar água sem análise, sobretudo em áreas extremante urbanizadas. Água cristalina não significa água potável”, completa Figueiredo.

Antes mesmo da instalação, outro cuidado necessário é conferir a viabilidade de um poço por meio de um estudo hidrogeológico para indicar - ou não - a presença de água. Solos muito arenosos podem ser inapropriados para extração de água. A vazão é ponto importante, pois se não houver capacidade de produção no poço, não faz sentido perfurá-lo. E uma vez aberto, é preciso analisar se vale a pena o investimento para tornar a água potável.

Um poço pode durar décadas e se for construído adequadamente vai funcionar bem durante toda a sua vida útil. Mas o investimento - se considerados custos operacionais, manutenção com produtos químicos e contratação de uma empresa especializada - é recomendável para edifícios residenciais e condomínios de médio e grande portes, especialmente do estilo resorts, pequenas e médias indústrias.

Os 32 apartamentos de um prédio de quatro andares no Bairro Fernão Dias, Região Nordeste de BH, passaram a receber água de poço artesiano há menos de um ano. A decisão, segundo o ex-síndico Adeílson Scarabelli, foi tomada após um período de estiagem na capital em que a interrupção de fornecimento da Copasa obrigava à compra do líquido em caminhões-pipa. “Contratamos uma empresa especializada que conseguiu a outorga e aguardamos o licenciamento por parte da Secretaria Municipal de Meio Ambiente”. Segundo Adeílson, a perfuração foi feita “na sorte”, porque caso não encontrasse o lençol o condomínio arcaria com os custos da mesma forma. Foram perfurados 120 metros, sendo 98m em rocha, com vazão de mil litros por hora. “As águas superficiais são contaminadas, por isso só se pode utilizar para consumo águas profundas.”

Foram necessários outros investimentos, como análise da qualidade, a instalação de bomba para levar ao reservatório, sensores para que a bomba seja desligada assim que a caixa de água estiver com a capacidade completada. Outras medidas foram tomadas para minimizar os impactos na manutenção do condomínio, as contas da Copasa foram individualizadas, foi instalada uma usina fotovoltaica para acionar o equipamento e construído um sistema de captação de água da chuva, utilizada na lavagem de áreas comuns, para regar o jardim e na limpeza de sanitários da área de serviço.
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