Decoração

Estandartes são alegoria de devoção e beleza

Símbolos de religiosidade trazido ao Brasil pelos portugueses no início da colonização, eles deixaram de ser peça de igreja e ganharam destaque na decoração de imóveis

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postado em 26/02/2012 07:00 / atualizado em 18/02/2012 14:24 Joana Gontijo /Lugar Certo
"A minha última experiência foi criar uma peça para altar de casamento realizado em São Paulo" - Rosi Figuez, artesã e designer

Na definição do dicionário, o estandarte é um tipo de bandeira, ricamente bordada, às vezes em fios de ouro, usada como guia em regimentos militares, insígnia de corporações ou comunidades religiosas e civis, símbolo distintivo de chefes de estado, de pessoas de famílias reais, ou representante de um país. Antes de aplicação mais limitada, presente em procissões ou até em frentes de batalhas, atualmente o estandarte comporta um contexto de utilização bem mais abrangente. Com a ideia de resgatar as tradições e a memória afetiva, ele ganhou também a decoração da casa, levando personalidade aos ambientes.

Veja mais fotos de estandartes

Este tipo de alegoria foi trazida ao Brasil pelos portugueses no início da colonização, e pôde ser vista inicialmente na primeira missa realizada no país, celebrada em 26 de abril de 1500 pelo Frei Henrique Soares, na Coroa Vermelha, Bahia, como explica a artesã Ivana Dantés. “Ele está intimamente ligado às tradições religiosas brasileiras, abrindo procissões das festas no interior, nas comemorações do Rosário, Semana Santa, Divino e Folia de Reis. Com a tendência de buscar nossas raízes e religiosidade, os estandartes foram, aos poucos, incorporados ao design de interiores”, diz.

Ivana afirma que os estandartes podem substituir um quadro tradicional em uma sala de estar, jantar ou no quarto, podem estar em um canto de oração com a imagem do santo de devoção, e as estampas com anjos caem bem em ambientes infantis. Com relação ao tamanho das peças que produz, a artesã conta que eles são variados. Desde quando começou a trabalhar na área, por volta de 2008, o maior que já fez tinha 1,50 m de altura por 2,00 m de largura, e o menor 10 cm por 5 cm. Mas o padrão de Ivana é 80 cm por 55 cm para o maior, 50cm por 30 cm para o médio e os menores medem 35cm por 20 cm, com preços variando entre R$ 10 e R$ 690, de acordo com o material utilizado, o trabalho feito e a metragem.

“As bandeiras religiosas são as mais solicitadas. Os santos de devoção variam um pouco de região para região”, ressalta Ivana. De uma maneira geral, Nossa Senhora Aparecida, São Jorge, São João, Santo Antônio, São Francisco e o Divino Espírito Santo são os mais comuns de serem retratados, sendo que a Sagrada Família, Nossa Senhora das Graças, Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora da Imaculada Conceição, Santa Rita, Santa Teresinha e Santo Expedito também são muito procurados. “Além dos religiosos, usa-se muito os mascotes de clubes de futebol e outros esportes, logomarcas de quaisquer organizações ou instituições, ou símbolos de agremiações carnavalescas. Existem, ainda, os estandartes sem estampas de figuras, porém com orações, quadrinhos ou ditos populares bordados. Há ainda aqueles com figuras que retratam cenas do cotidiano, contando uma história”.

Para a artesã Ivana Dantés, as peças foram, aos poucos, incorporados ao design de interiores - Eduardo Almeida/RA Studio Para a artesã Ivana Dantés, as peças foram, aos poucos, incorporados ao design de interiores
Para a confecção dos estandartes, muitos materiais podem ser usados, como juta, chita, retalhos de tecido de algodão, rendas, fitas, peças de bijouteria, fuxicos, flores de crochê, miçangas, canutilhos, galões dourados, lantejoulas, franjas, geralmente compostos em cores vivas, como vermelho, laranja, amarelo, azul e verde. “Eles conferem aos ambientes uma atmosfera bucólica característica das cidades do interior, trazendo também alegria, cor, rusticidade, despojamento, devoção e magia”, acrescenta Ivana.

Como demonstra a artesã e designer Rosi Figuez, que produz estandartes em seu ateliê no vilarejo de Bichinho, próximo a Tiradentes, no Campo das Vertentes, eles são considerados elementos de honra e valor sagrado, o que, para ela, confere a essas peças força e dignidade incontestáveis. Além de adornar, por exemplo, altar de capelas de fazendas e sítios, também são encontrados em lojas geralmente como o santo protetor do dono do estabelecimento. “Conheço colecionadores que tem em sua casa uma parede só de estandartes de São Jorge. A minha última experiência foi criar uma peça para um altar de um casamento realizado em São Paulo. O resultado foi surpreendente. Há também pessoas que os colocam próximos a porta de entrada como proteção ou em um lugar onde ele possa ser visto por todos. Já fiz um estandarte de Krishna bebê para o quarto de uma criança. O estandarte é muito versátil quanto ao lugar que pode ser inserido, basta saber o que você quer transmitir com a sua peça”.

ARTESANAL

Todo o trabalho de Rosi é feito à mão, e a variedade de elementos possíveis de serem utilizados na montagem do estandarte é grande. “Gosto de olhar a peça com calma, imaginar tons e materiais diferentes e deixar a inspiração chegar. Costumo dizer que tudo o que passa pela minha mão pode ser usado”. A confecção de um estandarte médio (45 cm x 90 cm) dura em média três dias. Um grande especial (1,5 m x 3 m) demora em torno de um mês ou mais para ficar pronto. Os valores das peças de Rosi podem variar entre R$ 60 e R$ 3,5 mil. “O estandarte é algo antigo que com o tempo passou a ser ligado à arte, à beleza e à decoração. Ele está sendo redescoberto e indo para dentro de nossas casas”, afirma.

A professora Maria Aparecida Coelho buscou na infância a inspiração para as bandeiras com imagens de santos - Eduardo Almeida/RA Studio A professora Maria Aparecida Coelho buscou na infância a inspiração para as bandeiras com imagens de santos
Com origem no interior de Minas, onde acompanhava na infância os festejos do Divino, o congado, as cavalgadas, e via a alegria do povo e a homenagem aos santos através dos estandartes, a professora aposentada Maria Aparecida Veado Coelho, a Fufuca, enveredou para o lado do artesanato e aprendeu a confeccionar as bandeiras. São 37 opções de santos que trazem a oração correspondente na parte de trás, agradando a um público variado. Uma maneira de aplicá-los também pode ser relacionando os santos católicos aos seus correspondentes entre os orixás do candomblé. “Eles inspiram uma atmosfera de contemplação e, usados há muito tempo, evoluíram e ganharam novos usos”, conta.

O resgate da tradição do interior

Saindo da tradição das antigas fazendas onde pequenos santuários eram erguidos dentro da própria casa e neles as paredes decoradas com pinturas, imagens e muitos estandartes, a arquiteta Patrícia Bomfá diz que hoje pode-se encontrá-los trabalhados em vários outros sentidos. “Não vemos somente uma imagem bordada ou mesmo um brasão de um país, temos sim uma imensa variedade de opções que demonstram aquilo que é importante e carrega grande significado pra cada um, por exemplo, relatos de cartas, poesias, imagens ou paisagens de locais admirados ou até mesmo o brasão do time do coração, porque não o seu hino tão querido?”, indaga.

Segundo Patrícia, a utilização pode ser ampla: vai desde a composição de um espaço gourmet trazendo um pouco do delicado trabalho manual e de regionalismo para a decoração; pode entrar na sala de estar integrado em uma parede com composições de quadros em vários estilos dando um ar super moderno e sofisticado (ele pode ser inclusive emoldurado para ficar ainda mais luxuoso); pode entrar no quarto da menina com desenhos delicados ou poemas; inserido no quarto do rapaz colocando em destaque seu fanatismo pelo clube querido de forma particular e única; ou ainda decorar o hall de
Joana Gontijo/Portal Uai/D.A Press
entrada de uma casa ou apartamento com frases que possuem sentido para a família, ou mesmo o brasão da mesma complementado com outros adornos. “Para mim, o estandarte passa um ar de aconchego, de lugar aquecido, onde temos um toque único, que simboliza algo muito importante pra quem o colocou ali, retrata parte do sentimento de quem mora naquele espaço. Um toque de tradição em meio à modernidade”.

Para a arquiteta Renata Basques, o estandarte confere ao espaço uma atmosfera de personalidade, algo bem pessoal, pois reflete bastante a identidade dos moradores, mas ela não aconselha a utilização de muitos com motivos religiosos em um só espaço. “Quando as pessoas querem resgatar suas memórias é natural que elas busquem algo que lembre a cidade que morou, a casa da avó. Enfim, acredito que esta tendência vem da memória das pessoas, que se ligam ao que traz um conforto, uma boa lembrança”, completa.

Tags: decoração,

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