Marchetaria

Marchetaria imprime um toque de arte nos ambientes

Técnica milenar que ficou famosa nas cortes francesas do século 17 e 18 transporta a móveis e objetos atuais identidade e beleza para enfeitar o lar com estilo

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postado em 15/04/2012 07:00 / atualizado em 13/04/2012 13:07 Joana Gontijo /Lugar Certo
Peças em marchetaria levam nobreza para a casa - Eduardo Almeida/RA Studio Peças em marchetaria levam nobreza para a casa

Uma arte milenar, a marchetaria (do termo francês “marqueter”, que significa embutir) é a técnica de montar, incrustar ou aplicar peças recortadas de madeira lançando mão das suas cores, veios e traços naturais para compor desenhos e figuras, comprovando extrema versatilidade de aplicação na decoração da casa. O apelo vintage das peças pode ser mesclado a projetos contemporâneos, criando ambientes carregados de história e identidade. Também com a possibilidade de ser trabalhada com outros materiais, a marchetaria sempre cria um tom acolhedor e esse potencial é muito explorado pela arquitetura e o design de interiores.

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Trata-se de uma técnica datada de mais de 3000 anos a.C., encontrada primeiramente nas pirâmides e templos do Egito, e desde a mais alta antiguidade na Europa, Ásia e China, como explica o artista Luiz Henrique de Assis. Muito tempo depois, a marchetaria renasce na Itália durante o Império Romano. No século 14, painéis passam a decorar o interior das igrejas da Toscana, no norte do país. “No começo, a marchetaria baseava-se em um estilo muito geométrico, que combinava a madeira com filetes de osso, de marfim e diversos metais. Evoluiu depois para um modelo mais figurativo, baseado em correntes decorativas e naturalistas. Atingiu seu apogeu na França, nas célebres cortes dos reis Luis XIV, XV e XVI, com peças únicas jamais igualadas”.

O artista Luiz Henrique de Assis diz que esse tipo de trabalho surgiu mais de 3000 anos a.C e já foi encontrado em pirâmides e templos egípcios - Eduardo Almeida/RA Studio O artista Luiz Henrique de Assis diz que esse tipo de trabalho surgiu mais de 3000 anos a.C e já foi encontrado em pirâmides e templos egípcios
A primeira técnica utilizada, chamada tarsia certosina, consistia no recorte de elementos do material a ser utilizado (pedra, madeira, metal, etc.) e a posterior incrustação nas cavidades abertas nas superfícies maciças com o auxílio de formões ou ferramentas similares. Para sua fixação utilizava-se cola. Luiz Henrique afirma que, posteriormente, desenvolveram-se muitas outras técnicas, e as principais utilizadas atualmente são: tarsia a toppo ou marquetery a bloc; tarsia geométrica; marqueterie de paille; tarsia a incastro ou technique Boulle e procéde classique ou element par element. Elas variam conforme a aplicação, a forma de fabricação e os materiais utilizados.

Para a confecção de inúmeros tipos de peças, é utilizada a madeira laminada ou em blocos (em pedaços com espessura de até 1mm), em tons originais ou artificiais, criando diversas possibilidades de figuras. Matérias-primas como osso, madrepérola, pedras, plásticos, cascos de tartaruga, fibra de coco, metais, palha, marfim, cobre, além da pirogravura, também são encontradas na marchetaria. Ela pode ser utilizada na decoração de várias maneiras, em tampos de mesa, cadeiras, portas de armários, pequenos utensílios como bandejas, porta joias, porta copos, porta guardanapos, aparadores, criados-mudos, cabeceiras de cama, biombos, pequenas caixas, pisos (parquet), tetos e paredes, quadros, esculturas e até grandes painéis. “É preferível que a peça esteja em uma áreas interna, onde não sofra ação dos raios solares e de umidade excessiva”, diz Luiz.

Para os sócios da Memoriabilia ADVintage, em BH, onde é possível encontrar diversos artigos em marchetaria, João Caixeta e Fabiano Lopes, sua inserção na decoração atual está em composição com a tendência vintage, pois se trata de um elemento
Tendência vintage influenciou a retomada da marchetaria na decoração atual, segundo João Caixeta e Fabiano Lopes, da Memoriabilia ADVintage - Eduardo Almeida/RA Studio Tendência vintage influenciou a retomada da marchetaria na decoração atual, segundo João Caixeta e Fabiano Lopes, da Memoriabilia ADVintage
datado, que carrega consigo os signos da memória. “No design de interiores, a presença da marchetaria tem muito efeito, que pode ser variado, e passa longe dos ambientes assépticos tão recorrentes da atmosfera minimalista que abstrai-se de qualquer forma figurativa”, dizem.

De acordo com João e Fabiano, no espaço contemporâneo se busca tudo aquilo que representa o gosto e as necessidades dos moradores, destacando sempre algo que revela sua intimidade. “O vintage trabalha com a memória. As peças que portam esse traço, como a marchetaria, adicionam uma possibilidade de personalização. O ideal é que a composição seja bem dosada. Por estar ligada intimamente como ofício que envolve a arte, apresentando o figurativo e o geométrico em situações distintas, a valorização desse tipo de peça agrega a delicadeza de seu feitio e o resultado traz cenas e imagens ricas em combinações criativas. É algo exclusivo”, acrescentam.

Na loja, os produtos em marchetaria estão presentes em diversos estilos, como o artdecó, o mobiliário dos anos 1950 e peças mais antigas. “Elas decoram e adornam os objetos de maneira singular caindo no gosto da maioria das pessoas que apreciam essa arte. Estamos hoje todos a procura de uma identidade. O mundo industrializado está sem essa possibilidade, trazendo opções pasteurizadas. Personalizar nossos espaços, conviver com os objetos que trazem seus significados ou simplesmente atendem nossa demanda por algo que nos emociona fica sendo uma boa opção de originalidade e resgate”, lembram João Caixeta e Fabiano Lopes.

Para o designer de interiores Marco Dias Reis, misturar as peças a objetos mais modernos é uma das possibilidades de uso - Eduardo Almeida/RA Studio Para o designer de interiores Marco Dias Reis, misturar as peças a objetos mais modernos é uma das possibilidades de uso
O designer de interiores Marco Dias Reis pontua a possibilidade de mesclar objetos em marchetaria, que têm um tom retrô, a composições modernas, como espelhos, vidros, lacas. “É uma soma enorme de aplicações que abre um leque cada vez maior para ser utilizada em diversos tipos de ambientes, agregando o charme e a historicidade inerente da técnica”. Para ter harmonia no projeto, Marco sugere eleger uma única peça em marchetaria, mantendo uma base neutra para não poluir o espaço. “Em detalhes ou propostas maiores, o efeito será sempre elegante”.

DESIGN

No Brasil, esta prática vem sendo utilizada por diversos profissionais que a introduziram em criações de arte e design, exibindo geometrismo, figuras estilizadas e ainda apresentando características estruturais ou dupla face, frisam as designers de interiores sócias da VS Design, Fabiana Visacro e Laura Santos. “A industrialização vem contribuindo com seus equipamentos para atualização e aperfeiçoamento da técnica, permitindo um acabamento nobre e resultando em peças de alto valor no mercado, sobretudo quando utilizadas sobras de madeira em respeito ao meio ambiente”, contam.

Para as designers, a arte da marchetaria tem como principal atributo a própria característica acolhedora da madeira e confere, através de seus desenhos únicos e cores diversas, originalidade e personalidade aos projetos. “As peças em marchetaria podem ser encontradas em diversos ambientes e serem expostas de formas variadas. Aparecem em detalhes cheios de valor como bijouterias trabalhadas, tabuleiros de xadrez e até um cabideiro com motivos lúdicos. Ganham impacto quando
Principal característica é o recorte de elementos como madeira, metal e pedra e a posterior incrustação nas cavidades em superfícies maciças - Eduardo Almeida/RA Studio Principal característica é o recorte de elementos como madeira, metal e pedra e a posterior incrustação nas cavidades em superfícies maciças
apresentadas em tampos de mesa, cadeiras, detalhes de teto e painéis decorativos para revestir paredes. A marchetaria se apresenta cada vez mais versátil dentro da decoração de ambientes, principalmente se levada em conta a sua viabilidade social e econômica. As padronagens quase sempre impactantes e o uso de cores diversas traz resultado único e pessoal”, completam.

A nobreza e a inovação

A designer e artista Tissi Mousinho criou em seu ateliê ladrilhos de madeira, chamados de madrilos, que associam a tradição e a nobreza do trabalho em marchetaria a novas tecnologias, para oferecer um produto criativo a um mercado que quer originalidade, exclusividade e respeito ambiental. Trata-se de um mosaico de lâminas de madeiras de vários tipos, como imbuia, mogno, freijó, marfim e wengue, com texturas e cores diferentes, montados sobre uma superfície de MDF. “Comecei com pequenos desenhos inseridos em objetos de uso diário. Os desenhos foram crescendo em superfícies maiores: tampos de mesas, painéis, portas, até atingirem paredes inteiras como grandes murais. Estes murais são montados por módulos (os madrilos), que podem variar de tamanho”.

A designer Tissi Mousinho criou ladrlhos de madeira através da marchetaria, os chamados madrilos - Divulgação A designer Tissi Mousinho criou ladrlhos de madeira através da marchetaria, os chamados madrilos
Tissi trabalhou por 20 anos como designer gráfica, mas por volta do ano 2000 retomou o desenho de produto, criando móveis e objetos de marcenaria. Depois, usou a experiência para criar um novo vocabulário no uso dos laminados de madeira, estampando padrões gráficos nas folhas de diversas espécies, criando desenhos com o contraste entre as tonalidades e texturas das lâminas. “Esta técnica milenar é a marchetaria, que abordo com olhar contemporâneo”. Os madrilos têm feito grande sucesso entre um público formado por pessoas amantes de trabalhos artesanais, arquitetos e designers de interiores procurando desenhos exclusivos e originais. O preço do metro quadrado fica entre R$ 960 (estampas mais simples) e R$ 1,8 mil (mosaicos complicados).

Natural de Santos, mas morando na Grande BH, o artista autodidata Luiz Henrique de Assis utiliza a técnica da marchetaria para produção de quadros. Cenas campestres, agrárias, casarios, florais e formas geométricas, trazem a inspiração. Filho e neto de marceneiros, Luiz conheceu a técnica há cerca de dez anos pela televisão e explorou a familiaridade que já tinha com a madeira para soltar a criatividade e desenvolver suas peças que antes eram um hobby e depois passaram a ser sua profissão.

ARTESANAL

A produção de quadros e painéis, seu carro chefe, é toda artesanal . No processo de fabricação, Luiz procura utilizar sobras de lâminas que são descartadas pela indústria moveleira, ou compra laminados de cores e texturas mais específicas, às vezes até importadas. “Tenho trabalhado muito na decoração de igrejas, fazendo quadros com via sacras, sacrários e painéis decorativos utilizando símbolos litúrgicos. Tenho criado também caixas decoradas com marchetaria para lojas de vinhos. Quanto aos preços, a marchetaria requer muita paciência e tempo. É um trabalho de precisão e dependendo da complexidade da figura trabalhada, varia entre R$ 500 e R$900 o metro quadrado”. Para o artista, a arte confere ao espaço um clima de nobreza. “Um móvel decorado com marchetaria no estilo Luis XV agrega muito valor ao ambiente. E também em móveis no estilo moderno, a marchetaria feita com materiais como casca do coco e certos cipós fica muita bonita”, completa.

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