Cristaleiras levam para a casa uma beleza secular

Sinal de luxo e nobreza em tempos passados, elas chegam à decoração moderna com novas aplicações

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postado em 03/03/2013 07:00 / atualizado em 03/03/2013 11:11 Joana Gontijo /Lugar Certo

O ambiente Copa da Chefe, apresentado por Tânia Eloísa e Charles Cruz na mostra Morar Mais por Menos de 2012, em BH, destaca duas cristaleiras em estilo romântico - Gustavo Xavier/Divulgação O ambiente Copa da Chefe, apresentado por Tânia Eloísa e Charles Cruz na mostra Morar Mais por Menos de 2012, em BH, destaca duas cristaleiras em estilo romântico

Símbolo de luxo e nobreza em épocas passadas, a cristaleira conquista espaço na decoração moderna com novas funções, compondo com graça propostas mais clássicas ou com tom contemporâneo. Com design antigo, embutida na marcenaria, ou em releituras que abrangem outros tipos de materiais, o móvel tem conotação ao mesmo tempo decorativa e utilitária. A cristaleira agora já não está mais apenas na casa da avó e agrada também aos mais jovens, tornando o lar menos impessoal e cheio de personalidade. Originada no século 17, a memória em relação à cristaleira quase sempre remete a uma peça de madeira maciça com portas de vidro, prateleiras e espelhos ao fundo, integrando a sala de estar ou jantar. Mas ela resiste ao tempo e agora tem atraído a atenção dos atuais projetos de ambientação, ganhando formas diferentes de apresentação e outros ambientes.

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De acordo com a arquiteta Tânia Eloísa e o designer de interiores Charles Cruz, tradicionalmente as cristaleiras eram usadas para guardar louças, copos e taças de cristal, entretanto hoje em dia ficaram mais modernas e adquiriram outros objetivos, passando a abrigar vários tipos de peças. Além de decorar um ambiente, elas se tornaram multifuncionais, ressaltam. “Transpondo o uso mais comum, a cristaleira pode guardar coleções de pequenos objetos, colocar livros raros, souvenires de viagens, assumir a função de um bar, abrigar CDs, bijuterias, roupas e até mesmo sapatos. Em projetos comerciais, também temos aplicado cristaleiras em lojas de enxovais, cafeterias, livrarias e em lojas de vestuário feminino”, contam.

As cristaleiras podem estar em diversos lugares da casa, como na sala de estar, jantar, home theater, quartos, closets, cozinhas e em outros ambientes, dependendo do projeto e da criatividade, assinalam Tânia e Charles. “Antigamente, elas eram feitas de madeira maciça e no tom original do material, em modelos clássicos no estilo Luiz 15, com portas de vidro e espelhos por trás. As atuais aparecem com releitura moderna, pintadas com cores vibrantes e materiais tecnológicos como o aço, o metal, ferro fundido e o vidro. Hoje, a cristaleira pode ter acabamento em laca em tons como amarelo, vermelho, turquesa, entre outros. Pode ser no modelo tradicional em estilo provençal, ou modernas em linhas retas”, comparam os profissionais.

Para Tânia Eloísa e Charles Cruz, quem pensa que lugar de cristaleira é na casa da vovó, está muito enganado - Eduardo Almeida/RA Studio Para Tânia Eloísa e Charles Cruz, quem pensa que lugar de cristaleira é na casa da vovó, está muito enganado
Para Tânia Eloísa e Charles Cruz, quem pensa que lugar de cristaleira é na casa da vovó, está muito enganado. Em composições clássicas, contemporâneas ou rústicas, ela agrada a todas as pessoas, sendo que, nas casas de jovens casais, o móvel tem adotado uma inspiração retrô, contam. “A especificação por uma cristaleira torna o ambiente menos impessoal e mais vinculado à memória familiar, diante de tantas inovações tecnológicas. Elas dão charme e personalidade ao ambiente, são capazes de garantir mais aconchego. Para quem quer um ambiente diferenciado e elegante, aposte nesta proposta que voltou com força total e é uma tendência no design. A mistura do clássico com o atual dá um charme especial ao ambiente que fica mais convidativo. Como se trata de uma peça muito útil, dependendo do estado de conservação a cristaleira antiga pode receber uma nova roupagem e ser enquadrada em qualquer estilo e projeto”, acentuam.

A arquitetura contemporânea não fica restrita a convenções e, assim, muito além de um repositório de louças ou cristais, a cristaleira pode ser vista como um armário envidraçado encerrando várias possibilidades, frisam as arquitetas Luciana Machado e Carla Casal. “Desse modo, não apenas seu uso, como também sua localização, se descolaram da origem. Podemos utilizá-la para guardar bebidas, lembranças, coleções, troféus, etc. O limite é a imaginação. Uma cristaleira na sala de televisão, por exemplo, pode acomodar os DVD’s ou, no quarto, armazenar as bijuterias, jóias e adereços. Enfim, o importante é harmonizá-la com o ambiente, adequando-a ao perfil dos moradores”, dizem.

Para Luciana e Carla, não há como separar a função utilitária da decorativa em relação à cristaleira, pois ela sempre guardará algo que embeleza o ambiente, podendo ser bastante versátil. De acordo com o conceito do projeto, uma ou outra finalidade poderá ser enfatizada, continuam. “Com o propósito de destacar e valorizar o espaço, torna-se uma peça decorativa. Já quando inserida em um móvel maior que abriga também outras funções, a cristaleira será mais uma das peças, integrando-se como parte de um todo. Quando vemos o conjunto e não a unidade, ela se torna mais utilitária. Iluminação, ambientação, cor, acabamento diferenciado e valor afetivo dos moradores também definirão a função preponderante”.

A cristaleira pode ser vista como um armário envidraçado encerrando várias possibilidades, frisam as arquitetas Luciana Machado e Carla Casal, como, por exemplo, exercer a função de um bar - Eduardo Almeida/RA Studio A cristaleira pode ser vista como um armário envidraçado encerrando várias possibilidades, frisam as arquitetas Luciana Machado e Carla Casal, como, por exemplo, exercer a função de um bar
As cristaleiras antigas eram móveis robustos e volumosos que serviam unicamente para o fim que foram criadas, dispondo objetos para exposição e proteção, ressaltam as arquitetas. Como todo mobiliário doméstico, ganharam novos materiais, formas e usos, sofrendo, por exemplo, com a redução dos espaços domiciliares. “As cristaleiras na grande maioria eram feitas de madeira, com entalhes, incrustações de mármores, folheadas de ouro ou prata e detalhes em bronze. Atualmente, a quantidade e variedade de acabamentos permitem atender a qualquer projeto e gosto. Ou seja, podem ser usadas com vários tipos de madeira, receber tingimentos, tinturas especiais, lacas, couro, tecidos, madeirados, chapas metálicas e tantas outras variações. Para se ter harmonia, devem ser levados em conta o espaço, a funcionalidade e a estética, tudo combinado segundo o perfil do morador. A cristaleira possui características que a tornam um clássico atemporal”, enfatizam Luciana e Carla.


Mistura de estilos

Na opinião da arquiteta Fabiana Quick, há inúmeras possibilidades em relação ao local onde uma cristaleira pode ser inserida dentro do lar. “É comum, por exemplo, a utilização de cristaleiras antigas em ambientes mais atuais, de forma harmoniosa. Elas vêm desempenhando um novo papel, e os jovens começam a dar outras formas de utilização para a cristaleira, inserindo-a no cotidiano. O móvel já não é usado apenas para abrigar cristais”, salienta Fabiana. A designer de interiores Deusicléia Horta acrescenta que já teve a oportunidade de ver uma cristaleira em um ateliê para noivas, onde foi aplicada como vitrine para tiaras e buquês, agregando muito charme à proposta, exemplifica. “Não há um lugar específico para sua aplicação. Em uma varanda gourmet, pode acomodar pratos, copos, talheres, e em um closet feminino fica muito interessante com as bijuterias, bolsas, chapéus. Não há restrições”, cita.

Linhas retas diferenciam a cristaleira moderna dos antigos traços rebuscados - Eduardo Almeida/RA Studio Linhas retas diferenciam a cristaleira moderna dos antigos traços rebuscados
Como explica Deusicléia, por volta dos anos 1970 muita coisa se perdeu em nome da tão aclamada modernidade. “Geralmente estas peças são conservadas em família. Sempre tem alguém que quer preservar, seja pela beleza e utilidade do móvel ou pelas lembranças. Hoje, a cristaleira se tornou um elemento versátil que pode ser usado em todos os estilos de decoração. Os mais jovens acabam optando por dar uma cara nova ao móvel, usando um recurso prático e barato que é a pintura. Cores fortes e cítricas estão em alta”. Para a designer, a mistura de estilos requer um pouco mais de cuidado, mas quando feita de forma harmoniosa geralmente gera um excelente resultado que foge daquela decoração certinha e tradicional. “Uma cristaleira mais clássica em um ambiente com móveis modernos pode ser uma ótima solução para quem gosta e quer preservar um móvel de família, além de criar uma identidade ao projeto. Seja uma peça antiga, reciclada ou atual, sempre será útil e pode ser usada sem medo. Até porque, o 'fora de moda' não existe”.

A arquiteta Andrea Pinto Coelho acredita que a cristaleira assume um lado mais decorativo quando expõe objetos de coleção e peças de valor, tanto emocional, quanto financeiro, e um teor mais funcional quando guarda objetos que podem ficar aparentes e bem organizados. A arquiteta salienta que os materiais e o design diferenciados permitiram a mudança entre os traços dos móveis antigos e contemporâneos. “As cristaleiras podem ser de diversos materiais e com diferentes acabamentos, como laca, pátina, verniz. E hoje aparecem em diversos desenhos e formas, podendo ser de canto, estreitas, fixadas na parede, embutidas na marcenaria, altas, baixas, grandes, pequenas. A escolha deste tipo de mobiliário é uma questão de estilo e também tem sido muito aceita pelos jovens, principalmente se for uma cristaleira herdada. Ela garante requinte, vida e personalidade ao projeto, envolvendo um tipo de resgate da história. Sendo ou não herança de família, o móvel não foi esquecido e é constantemente lembrado em novos projetos, por causa de sua versatilidade”, enfatiza a arquiteta.

No ambiente Copa da Chefe, assinado por Tânia Eloísa e Charles Cruz na mostra Morar Mais por Menos de 2012, em BH, duas cristaleiras foram grandes destaques. Como explicam os profissionais, a proposta era criar um projeto para uma chefe mineira que buscava inspiração para novos pratos, onde sensações, sabores e aromas se mesclassem em um ambiente tipicamente mineiro. “Para isto foram usados móveis de madeira de demolição, um lustre de xicrinhas e as duas cristaleiras que foram coloridas para dar um ar mais contemporâneo, assim como as cadeiras de design. A parede de forminhas de papel, o verde dos chás e das hortaliças e a parede verde, lembrando os quadros escolares para escrever receitas, listas de compras e recadinhos, completaram o cenário”, finalizam.

Originada no castelo

Projeto de Tânia Eloísa para uma livraria e cafeteria. Cristaleira agrega charme à proposta - Tânia Eloísa/Arquivo Pessoal Projeto de Tânia Eloísa para uma livraria e cafeteria. Cristaleira agrega charme à proposta
Conta a história que o primeiro “louceiro” foi encomendado a artesãos pela Rainha Mary, da Inglaterra, no fim do século 17, elucidam Tânia Eloísa e Charles Cruz. Ela colecionava as tradicionais porcelanas em azul e branco de seu país natal, a Holanda, e queria expor e guardar suas preciosidades. “Do castelo, a novidade partiu para o resto da Europa e os Estados Unidos. No Brasil, aportou com a corte portuguesa, que trazia em guarda-louças e cristaleiras itens de uso ainda não conhecido. Por muito tempo, as cristaleiras foram um símbolo de riqueza e poder”. Andrea Pinto Coelho acrescenta que este era um móvel para ser visto, admirado e eventualmente aberto para visitas ilustres ou em ocasiões especiais. Luciana Machado e Carla Casal lembram que o móvel evoluiu das cômodas chegadas em Versalhes, que por sua vez vieram dos baús. Sua criação veio da luta dos arquitetos para manter um estilo mais “desobstruído”, o armoire. No entanto, seu sentido dominante mudou quando a cômoda se tornou ovelha negra dos arquitetos modernos que promoveram um tipo de armoire completamente diferente, espécies de nichos de armazenamento conhecidos hoje como armários embutidos, guarda-louças e cristaleiras. “Durante muito tempo, a cristaleira ficou restrita à casa das avós e na memória afetiva das pessoas. A transformação cultural vivenciada na sociedade no último século mitigaram as convenções e isso se refletiu no mobiliário. Logo, como um móvel utilitário e decorativo, a cristaleira também foi impactada pelas mudanças. Hoje ela não conhece fronteiras e é utilizadas por todos, jovens e “jovens a mais tempo”. O que definirá seu uso é a personalidade e objetivos de cada um”, concluem Luciana e Carla.

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