A renovação do passado

Uso de madeira de demolição em móveis exige cuidados que garantem maior durabilidade

Especialistas ensinam como preservar esses pedaços entalhados da história

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postado em 30/06/2013 07:30 / atualizado em 30/06/2013 08:03 Joana Gontijo /Lugar Certo
Eduardo de Almeida/RA studio

Os móveis e objetos fabricados com madeira de demolição carregam um forte caráter identitário e de temporalidade. Se pudesse, cada peça contaria histórias de quando era uma janela ou o assoalho em uma casa interiorana, um dormente em uma estrada de ferro ou a grande porta de uma fazenda. Com muitos anos de existência, não seriam poucos os casos, já que muitos desses produtos são originários de construções antigas. Aplicada em diferentes e inúmeras propostas na arquitetura e decoração, características como robustez, resistência e durabilidade são marcantes quando se trata de madeira de demolição. Alguns cuidados simples e a manutenção adequada garantem que este tipo de mobiliário perdure a beleza a qualidade com o passar dos anos, orientam especialistas.


Dependendo de onde são utilizados, os móveis de demolição podem até mesmo ficar expostos ao sol e à chuva e, em áreas externas, o ideal é utilizar um verniz que os proteja das interferências naturais, explica Rodrigo Nascimento, diretor da Jeito Mineiro, marcenaria especializada na produção de objetos feitos a partir da madeira de demolição, inaugurada em 2011. “Outra recomendação é evitar que os móveis estejam em contato direto com a terra porque eles podem apodrecer ou sofrer ataques de pragas, como cupins e carunchos”. Já dentro de casa, deve-se ter atenção, inicialmente, ao posicionamento dos móveis. Segundo Rodrigo, não é indicado que as peças tenham contato direto com o sol, porque podem escurecer, e nem com calor excessivo, que faz a madeira entortar.

O empresário Rodrigo Nascimento recomenda que não haja contato com a terra, para evitar surgimento de pragas
 - Eduardo de Almeida/RA studio O empresário Rodrigo Nascimento recomenda que não haja contato com a terra, para evitar surgimento de pragas
Em ambientes internos, a manutenção é simples e pode ser feita uma vez ao mês, além da limpeza diária com pano liso e não úmido. O primeiro passo é polir o móvel com uma lã de aço seca, passar uma estopa seca e, por último, cera de carnaúba. “Deve-se deixar a cera secar por duas horas e depois lustrar com flanela limpa e seca. Se a pessoa desejar uma superfície mais brilhante, basta realizar toda operação novamente depois de uma hora”, diz Rodrigo.

A arquiteta Daniela Meireles Carvalho, que também utiliza a madeira de demolição em seus projetos, reforça que algumas questões técnicas devem ser consideradas quando se utiliza esse material. Segundo ela, há que se verificar a instalação de luminárias na madeira ou próximo a ela. “Reatores e transformadores se aquecem durante o funcionamento e, se estiverem em contato direto com a madeira, criam marcas escuras de queimado. Além disso, há o risco de iniciarem um incêndio ou provocarem ruptura da peça”, acrescenta. “Um móvel de demolição dentro de um ambiente será a peça mais vista no local. Então, deve-se garantir o cuidado para que ele possa se destacar de maneira positiva. Com a manutenção adequada, os móveis preservam suas características, continuam bonitos e, em espessuras robustas, podem passar de geração a geração”, afirma a arquiteta.

SUSTENTÁVEL

Diante da escassez de algumas espécies de madeiras nobres, a reutilização desta matéria-prima com novos usos práticos em objetos de demolição aparece com um apelo de sustentabilidade, de acordo com a arquiteta e designer de interiores Valéria Alves. “Com desenhos diferenciados que levam em conta os traços próprios que a madeira impõe, tradicionais, barrocos ou mesmo rústicos, estes móveis podem ser aliados, por exemplo, ao estilo moderno, com a introdução das linhas retas”, destaca. Com a possibilidade de ser inserida a qualquer tipo de ambiente levando em conta a funcionalidade, a madeira de demolição, na opinião de Valéria, confere charme, elegância e beleza ao projeto, proporcionando uma atmosfera de aconchego. “A durabilidade do móvel vai depender da madeira, porém sua vida útil é muito longa, até mesmo porque a madeira utilizada é altamente resistente a fungos, insetos e umidade. A rusticidade original permite várias restaurações, como um simples restauro ou a mudança de modelo e função do móvel”, acrescenta.

Tanto em imóveis residenciais como em propostas comerciais, para a arquiteta Renata Basques o resultado fica mais interessante quando a madeira é aplicada com aparência de usada, para mostrar que realmente é antiga – pedaços de pregos, ranhuras, furos e restos de pintura, exemplifica, o que torna cada peça única. “Eu gosto de utilizar a madeira de demolição em locais onde quero inserir um clima mais rústico e acolhedor, como em varandas, cozinhas gourmet, áreas de lazer, portas de entrada. O tom de conforto e calor impresso nesses espaços pode ser mesclado com elementos mais contemporâneos, formando uma boa combinação, muito bem vinda. A aparência do móvel pode ficar ainda mais bela através do tempo.”

A arquiteta Daniela Carvalho ressalta a importância de ter atenção a instalações elétricas e luminárias próximas aos móveis - Eduardo de Almeida/RA studio A arquiteta Daniela Carvalho ressalta a importância de ter atenção a instalações elétricas e luminárias próximas aos móveis
Para ter harmonia entre esses móveis e o restante da decoração, deve haver atenção, pois eles são marcantes, continua Renata Basques. “Quando conseguimos uma boa dose entre o rústico e o atual o resultado é equilibrado. Particularmente, sou a favor do estilo reto e contemporâneo. Acho que um bom profissional consegue inserir a madeira de demolição em seus projetos sem que ela pese demais, permitindo um bom efeito. Madeiras duráveis e nobres que já não existem mais hoje são repaginadas e ganham um visual moderno”, ressalta.

A madeira de demolição cria um conceito próprio ao projeto, enfatiza a arquiteta Daniela Meireles. Para ela, o material traz a identidade de um elemento natural, a carga da história e dos costumes de um povo, além da questão ecológica com o reaproveitamento de uma madeira já existente, o que posiciona os produtos em um patamar importante no mercado de movelaria. “Com ranhuras bem definidas, este tipo de mobiliário é de forte apelo visual, indica nobreza, e é facilmente unido a outros materiais de acabamento, conferindo identidade e personalidade a um ambiente como parte da arquitetura ou do paisagismo.”

Presente em toda a casa

Além da beleza, madeiras reutilizadas têm grande apelo sustentável, segundo a arquiteta Valéria Alves - Eduardo de Almeida/RA studio Além da beleza, madeiras reutilizadas têm grande apelo sustentável, segundo a arquiteta Valéria Alves
Mesas, cadeiras, bancos, painéis verticais, para televisão e outros eletrônicos, lareiras, escadas, pisos, revestimentos de parede, tampos, bancadas, balcões, aparadores, estantes, luminárias, cristaleiras, cômodas, penteadeiras, armários, divisórias, pergolados e decks, elementos de fachada como brises, lambris verticais, portas, janelas, adornos, acessórios e outros detalhes decorativos são apenas algumas possibilidades de aplicação da madeira de demolição. A união com outros materiais como vidro, aço cortén e polido, granitos, MDF, alumínio, espelhos, ônix, couro, corian, resina, acrílico e acabamentos em laca, gofrato ou pintura também é permitida e traduz um tom de atualidade em móveis renovados, segundo as sócias da Dekor Design, Marli Viana e Valéria Leão, e a arquiteta Daniela Meireles.

Como esclarecem as profissionais da Dekor Design, os móveis de demolição são caracterizados pela madeira com que são fabricados, como peroba rosa, ipê, carvalho ou jacarandá, usados, por exemplo, em dormentes retirados de linhas ferroviárias, em perfis usados em postes de energia elétrica, na arquitetura e na construção civil, tanto na estruturação quanto nos revestimentos de casarões antigos. “Na decoração, a madeira de demolição tem sido muito usada, carregando um valor agregado ao aliar beleza, aconchego, sustentabilidade, energia, sofisticação e valorização de recursos naturais em itensdiferenciados.”
Tendência de criar móveis com madeira de demolição começou nos anos 1970, numa tentativa de copiar ambientes rurais - Eduardo de Almeida/RA studio Tendência de criar móveis com madeira de demolição começou nos anos 1970, numa tentativa de copiar ambientes rurais

As madeiras de grande dureza e qualidade atravessam anos sob intempéries e permanecem interessantes, segue Daniela Meireles. “Os veios criados através do tempo imprimem valor decorativo pela textura única formada na peça, como uma imagem rica em detalhes. Os furos dos pregos indicam que aquele material se fez presente em outra época.” O contraponto entre o novo e o antigo é uma ferramenta muito aplicada pelos profissionais da área, concebendo projetos atemporais e adequados a todos os gostos, complementa. “Neste contexto, a madeira de demolição pode conceber um estilo barroco ou rústico para a proposta, ou demonstrar um design contemporâneo, em que a peça entra como detalhe se misturando com materiais do momento atual.”

Para instalação em áreas externas, material precisa ser tratado com verniz especial e manutenção frequente - Eduardo de Almeida/RA studio Para instalação em áreas externas, material precisa ser tratado com verniz especial e manutenção frequente
Na Jeito Mineiro, a matéria-prima utilizada para a produção dos móveis é a peroba rosa. Segundo Rodrigo Nascimento, com o passar dos anos, as madeiras de demolição continuam intactas e firmes. Nos projetos de decoração recomendados por arquitetos e clientes, a marcenaria fabrica tanto peças para áreas externas quanto internas. Originada para atender a demanda surgida em uma rede de restaurantes de Belo Horizonte, a empresa ganhou maior visibilidade, de acordo com Rodrigo, com a participação no ambiente Terraço do Encontro, assinado por Valéria Alves, na Casa Cor Minas do ano passado.

CONVIVÊNCIA

“A proposta era ter um espaço de relaxamento e descanso, apropriado para o lazer da família e encontros com amigos. Os móveis em madeira de demolição foram escolhidos pela beleza e a resistência em ficar em um ambiente que receberia muita umidade e incidência solar”, explica Valéria. Como grande atração do espaço, uma champanheira figurava como o móvel dos sonhos de todos aqueles que reservam um local para convivência em áreas externas. “Um grande banco também de demolição foi colocado para que os visitantes pudessem descansar, e cachepôs em madeira estilizados com pinturas sobrepostas conferiram uma cara nova ao conceito”, completa.

Eduardo de Almeida/RA studio
SAIBA MAIS


A utilização da madeira de demolição começou por volta da década de 1970

» A grande quantidade de edificações oriundas dos tempos coloniais fez de Minas Gerais um dos principais palcos das demolições

» O processo para construir o móvel começa pela escolha da matéria-prima, a madeira nobre, envelhecida pelo tempo, que tem muita resistência e durabilidade, e passa por um rigoroso processo de limpeza em que as imperfeições são evidenciadas por escovação e aparelhadas em medidas necessárias para aplicação de um novo mobiliário.

» A beleza das peças ganhou espaço nobre na arte, decoração, arquitetura e construção, e começaram a surgir marcenarias especializadas e garimpeiros da madeira em cidades históricas, reformas de igrejas antigas, fazendas centenárias e dormentes de estradas de ferro.
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