Fenômeno da decoração

Arquiteto brasileiro que conquistou o mundo fala sobre carreira de sucesso e planos futuros

Com cerca de 40 projetos em andamento pelo mundo, Sig Bergamin dá rasante em BH e concede entrevista ao Estado de Minas

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postado em 19/11/2013 07:00 / atualizado em 19/11/2013 11:09 Laura Valente /Estado de Minas
Sig Bergamin/Divulgação

Nascido em uma família pequena em Mirassol, interior de São Paulo, Sig Bergamin se mudou para a capital aos 15 anos, a fim de dar sequência aos estudos. Em um rasante por BH, onde veio para apresentar o projeto da loja Chantê (inaugurada recentemente no Seis Pistas), revelou em entrevista exclusiva para o Estado de Minas não ter nascido em berço de ouro. Tanto que trabalhou para financiar o curso na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de Santos com recursos pessoais. De lá para cá, conquistou o mundo, literalmente. Famosíssimo por imprimir uma assinatura totalmente própria à decoração, baseada na mistura de estilos e referências diversas, e conhecido pela profusão de cores e matérias-primas, o profissional trilhou uma carreira sempre ascendente e bem -sucedida que já completa quase 40 anos a partir de algo que nem ele mesmo sabe definir: talento, vocação, subversão?


Talvez trate-se, simplesmente, da ausência de medo de errar, propor, inovar. Caracteriza-se ainda como homem que adora desafios e nunca opta pelo óbvio. Assim, do primeiro trabalho – a legendária boate The Gallery, sucesso absoluto na São Paulo dos anos 1970/80, aos projetos atuais (que não saem do papel por menos de R$ 60 mil), o arquiteto/decorador mistura cores e objetos de forma quase caótica, instintiva, magistral. Por isso mesmo, está atuando em cerca de 40 projetos sediados nas mais diversas cidades do globo: Londres, Paris, Miami e outras. Apesar da agenda recheada, reserva tempo para trabalhar em novos projetos: o lançamento do quarto livro da carreira.

ENTREVISTA/SIG BERGAMIN, ARQUITETO E DECORADOR
Beto Magalhães/EM/D.A Press

O que veio primeiro, a arquitetura ou a decoração?

Quando entrei na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo nem sabia o que era decoração, mas atualmente digo que executo as duas coisas juntas. Não gosto só de decorar um ambiente pronto, mas de trabalhar no acabamento, no rodapé, na cortina e por aí vai.

Como caracteriza o seu trabalho?

Sempre bato um papo com o cliente porque o projeto tem que ter a cara do dono e não ser parecido com um showroom ou com a casa de outra pessoa. É como a roupa, deve ter personalidade. Para além dessa conversa, adoro desafios: um projeto nunca é igual ao outro, assim como as poltronas que desenho sempre serão diferentes.

O que me diz dos lançamentos de Milão?

Nunca fui a uma feira de Milão. Prefiro viajar para o Oriente para absorver o exótico, a abundância sem medo. Em Milão é tudo igual. Há peças bonitas, de design, os sofás italianos são imbatíveis, mas exceto por uma referência ou outra prefiro beber em outras fontes.

Sig Bergamin/Divulgação
De onde vem seu feeling para o uso de referências tão diferentes? Foi um jovem subversivo?


Fui muito careta. Enquanto todo mundo era hippie eu fazia a linha mauricinho.

Nasceu em uma família de posses?

Não nasci no Jardim Petrópolis (bairro nobre de São Paulo), mas hoje moro lá. Venho de uma família pequena, meus pais já morreram e falo raramente com meu único irmão. Saí de Mirassol para São Paulo com 15 anos e tive que trabalhar para pagar meus estudos.

Como criou sua assinatura para decorar?

Sempre gostei de desafios, de misturar. Nunca opto pelo óbvio. Não sei explicar como surgiu, acho que vem de não ter medo. Gosto de correr riscos.

Qual foi seu primeiro grande projeto?

Fiz a Gallery com vinte e poucos anos e já fiquei conhecido. Também frequentei demais o Studio 54, em NY, e lá comecei a carreira internacional. Ganhei dinheiro rápido e desde então nunca mais parei. Nessa época ficava na rua, entre amigos, até às 6h da manhã, mas as 8h30 já estava no escritório.

O senhor gosta de estilos e referências diversas, muita etnia. Por favor, fale um pouco a respeito.

Conheci a Índia há 17 anos e desde então já viajei para lá mais de 20 vezes. Gosto muito da estética anglo-indiana, marcada pela colonização inglesa com a introdução de peças em vime, cores claras, linho na decoração. Também sou muito ligado à Tailândia, China, Bali, Vietnã, África. Adoro muita cor, etnias, dar um toque oriental aos projetos. Estou fazendo um apartamento em Miami todo decorado com móveis marroquinos e sírios. Mas há projetos em que não cabe esse tipo de referência.

Uma cor preferida?

O azul. Aliás, muitos me chamam de Rei Azul. A cor tem mais de 300 matizes, é um universo! Não imagino uma casa de praia que não seja azul.

A partir de quanto custa um projeto seu e quanto tempo leva para executá-lo?

A partir de R$ 60 mil. Há projetos pequenos, executados em três meses. Em termos de criação sou rápido, já que só faço isso, vivo isso. Não constituí família, não tenho filhos. Apenas uma pessoa que adoro e quatro cães, fêmeas, que são minha paixão. Outros projetos duram anos. Estou fazendo um aqui em BH, no Clube dos Caçadores, que só ficará pronto daqui a um ano.
Sig Bergamin/Divulgação

Negocia?

Tenho fama de careiro, inatingível, mas creio que é por minha imagem ser totalmente relacionada ao trabalho, daí as pessoas terem medo. No entanto, sou muito acessível para clientes bacanas. É verdade que rejeito muitos projetos, não gosto de pessoas chatas, inflexíveis. E não vendo minha alma por dinheiro nenhum. Por exemplo, o cliente que liga para agendar e não dá opção de pelo menos três horários: tem que ser na hora que ele quer. Aí, não dá. Esse tipo de pessoa cria problemas em tudo quanto é lugar, não deveria nem sair de casa. Pra mim, a relação com o cliente tem que ser light, o que não quer dizer sem prazos.

O sr. veio inaugurar o projeto da loja Chantê. Quais são as principais características dele?

É uma loja jovem, leve, uma proposta alto-astral em que a cliente serve-se das peças, como se estivesse no seu closet. Não é austera, mas no conceito easy going, parece que você está mesmo em casa.

O que é cafona?

A pessoa prepotente, que acha que sabe alguma coisa. E também pessoas que não sabem delegar. Na decoração, acho cafona tudo que é artificial. Outro dia, quase quebrei o dente com uma maçã de madeira.

Por favor, conceitue bom gosto.

Bom gosto é conforto. Um projeto deve conter tudo aquilo que a pessoa gosta. Uma cozinha fantástica para quem gosta de cozinhar; para quem curte TV, um superaparelho em sala com um bom sofá (italiano e de plumas, de preferência); um colchão perfeito, porque todo mundo merece dormir bem e por aí vai.
Sig Bergamin/Divulgação

Quais projetos pessoais estão em sua pauta?

O lançamento do quarto livro da minha carreira, Sig Style ou Sig Brasil Style, previsto para abril ou maio de 2014. O conteúdo não trará apenas projetos e decoração, mas um pout-pourri da minha vida. E acabei de lançar o site Sig In (sigin.com.br), uma link list em que posto diariamente nove cápsulas em temas diversos como artes, música, livros, design, restôs (restaurantes), moda, mundo, achados… Por enquanto, nada é comercializado, mas a ideia é que o projeto seja o embrião de um e-commerce com minha curadoria. No Instagram, por exemplo, tenho mais de 38 mil seguidores. Meu desejo é trabalhar 50% do tempo com clientes e 50% com o e-commerce.

Quais profissionais da arquitetura e das artes o senhor admira?

O arquiteto norte-americano Peter Marino, que faz as lojas da Chanel, Fendi, Dior e Vuitton; os brasileiros Isay Weinfeld (que assinou os projetos do Fasano Rio e São Paulo), Vik Muniz, Gêmeos, Beatriz Milhazes, e muitos outros. Tenho mais de 5 mil livros de artes, comprados um a um.

Há diferença entre trabalhar com o cliente brasileiro e o estrangeiro?

Ah, sim. O brasileiro não sabe o que quer, falta-lhe identidade. Já o europeu não gasta, fica com um mesmo cashmere por mais de 10 anos.

Sig Bergamin/Divulgação
Por falar em características do brasileiro, o que pensa sobre a polêmica a respeito das biografias?


Não é democrática. Acho ridículo o Chico e o Caetano, que pregavam a liberdade, posicionarem-se contra as biografias não autorizadas, uma praxe no mundo todo.

Como gostaria de ser caracterizado em uma biografia?

Como uma pessoa que trabalha, honesta, que adora criar, garimpar, viajar, mas também voltar para a casa.

Teme envelhecer?

Não. Adoro trabalhar, sentir o sangue correr, e creio que a pessoa que para caduca, anda para trás. Picasso pintou até o último dia de vida. Envelhecer velho é chato, mas tranquilo é muito bom, ficamos mais maduros, mais sábios a respeito das coisas.

Como se vê?

Sou uma pessoa privilegiada. Estou muito feliz, muito: tenho minha casa, os cachorros, uma pessoa que adoro. Trabalho com o que gosto e tenho paz em casa, o que já é muita coisa.

Alguma viagem que ainda não fez?

Não conheço a Rússia, mas tenho vontade de ir a Saint Petersburg e não a Moscou. Também tenho curiosidade de conhecer Praga, na República Tcheca. Mas gosto mesmo é de passar o verão na Europa, em St. Barthes (território francês), ou Puglia, no Sul da Itália. Não tomo sol, mas gosto da água, do vento e de estar em lugares de pessoas felizes.

Depois de correr o mundo, pretende morar em alguma cidade específica?

Odeio o trânsito, então não quero envelhecer em uma cidade grande, mas no campo, em um município próximo a São Paulo, ou no Sul da França, com mais cachorros, jardim e horta, como descreve a música de Elis Regina: “eu quero uma casa no campo…”.
Sig Bergamin/Divulgação

Tags: arquiteto

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