As construções modernas, com fachadas de vidro e aberturas reduzidas, tornam os lares mais quentes e dependentes da climatização artificial. Já os imóveis antigos se beneficiavam da ventilação cruzada e de materiais que mantinham a temperatura interna mais estável, criando ambientes naturalmente frescos. Janelas amplas, portas generosas e pé-direito alto eram características comuns das casas brasileiras de décadas atrás.
Hoje, com tetos baixos e grandes superfícies envidraçadas, o calor se acumula, aumentando a necessidade de ar-condicionado. "Esses elementos eliminaram a ventilação cruzada e o sombreamento, substituindo soluções passivas que garantiam conforto térmico antes mesmo da existência da climatização mecânica", explica Loyde Abreu, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), para o Casa e Jardim.
Materiais como taipa, adobe e tijolo maciço, que retardavam a transferência de calor por até oito horas, foram trocados por paredes leves com defasagem térmica de menos de 90 minutos. Coberturas de telha cerâmica deram lugar a lajes planas sem beirais, intensificando o aquecimento interno. "Construções antigas podiam gerar até 40 trocas de ar por hora (ACH), enquanto edificações modernas chegam a apenas 17 ACH nas mesmas condições", acrescenta Loyde.
Segundo Fernanda Basques Moura Quintão, arquiteta e conselheira do CAU/BR, os imóveis contemporâneos foram projetados sem considerar clima, orientação solar e ventilação natural. "O Brasil tem tradição em arquitetura adaptada ao clima, mas parte desse repertório foi sendo deixada de lado", afirma.
Entre os fatores que aumentam o calor estão pé-direito baixo combinado com vidro exposto ao sol, fachadas envidraçadas sem sombreamento e reformas que reduzem aberturas naturais. Para reduzir a dependência do ar-condicionado, especialistas recomendam repensar a construção com inteligência climática.
A orientação solar, o sombreamento, o uso de materiais adequados, a ventilação cruzada e a integração com a vegetação e o microclima urbano são soluções que já existiam e podem ser atualizadas. "A resposta precisa ser mais técnica, mais local e mais arquitetônica", reforça Fernanda.
Medidas simples também ajudam a refrescar o lar: melhorar a circulação do ar com janelas e portas posicionadas estrategicamente, proteger fachadas com cortinas, brises ou películas de controle solar, reduzir fontes internas de calor e adotar vegetação próxima ao imóvel.
Loyde recomenda ainda abrir janelas por pelo menos duas horas ao dia, preferencialmente no início da manhã e à noite, para potencializar a ventilação cruzada e reduzir o desconforto térmico em até 60%.