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Mercado Imobiliário

O batismo dos edifícios

O prédio tinha nome de mulher e a justificativa era que os construtores queriam homenagear suas filhas

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postado em 18/09/2011 21:24


Recentemente, economista mineiro nos brindou com ótimo artigo sobre o fenômeno do bullyng, palavra inglesa que define o comportamento de pessoas que amedrontam outras, causando-lhes dor, constrangimento ou outro tipo de sofrimento, especialmente no plano emocional. Nele, o autor não só discorre sobre essa prática, como mostra seu inconformismo pelo desconhecimento do similar em português, bulimento, derivado do verbo bulir. Na esteira de seu protesto pelo uso do estrangeirismo desnecessário, o articulista avança para o campo imobiliário. Ele mostra sua estranheza com os nomes dados aos edifícios, citando um caso curioso de um edifício em São Paulo, batizado de Tasty Panamby, que ele traduziu das duas línguas originárias, o inglês e o tupi-guarani, cujo significado seria borboleta gostosa. Ao concluir, o autor cita um texto anterior, onde havia feito um apelo para que fossem explicados os fundamentos da origem do nome dos edifícios. Segundo ele, isso o levou a observar uma sequência de prédios batizados com uma grande diversidade de nomes, imaginando se haveria alguma lógica na escolha e quantas são as pessoas que têm o mesmo questionamento sobre o assunto. A primeira lembrança que me veio à mente foi uma coincidência da aquisição de um apartamento no início dos anos 1990, quando uma construtora de Belo Horizonte resolveu batizar seus edifícios com nomes de castelos franceses e, assim, a cidade ganhou diversos %u201Cchateaus%u201D. Outra recordação é o primeiro prédio onde residi quando nossa família se transferiu para capital. O prédio tinha nome de mulher e a justificativa era que os construtores queriam homenagear suas filhas. Esses dois exemplos servem para demonstrar que a escolha do nome dos edifícios é similar ao que se passa com os pais em relação aos filhos, pois segue uma tendência e acompanha um momento, embora o caso dos nomes femininos seja mais abrangente. A adoção dos nomes dos castelos franceses foi acompanhada por regiões da Europa, quando surgiram os Boulevards, as Maises e as Plazas. Em nossa pesquisa, na tentativa de encontrar fundamentos para esse tema, fizemos um interessante estudo cronológico, que se inicia nos anos 1950, onde foi mostrada a similaridade da escolha de nomes que exaltaram o nacionalismo, como árvores típicas brasileiras, na esteira do desenvolvimento de JK e do modernismo de Niemeyer. Nos anos 1960, o marco foi a força do estrangeirismo, especialmente nas camadas mais altas, cujos prédios tinham nomes franceses, ingleses ou italianos. Nos anos 1970, o movimento feminista dá força ao surgimento de nomes de mulheres, como o Joelma, que ficou famoso pelo incêndio. E, nos anos 1980, retorna a onda de nomes estrangeiros decorrentes da difusão da arquitetura neoclássica, quando os arquitetos se inspiravam em diferentes estilos originários da Europa. Os anos 1990 foram marcados pela revisão da arquitetura moderna e, com ela, a continuidade da utilização de nomes estrangeiros. Em seguida, os edifícios incorporaram ao nome suas funções, como os %u201Chome office%u201D, %u201Clan house%u201D e %u201Cfitness center%u201D, que refletem o estilo de vida. Embora esse registro histórico se mostre interessante, o que se busca é tornar o nome do empreendimento autoexplicativo, devendo estar integrado à estratégia de comunicação do produto. Caso de um centro empresarial no Rio de Janeiro, batizado de Ceo %u2013 Corporate Executive Offices, cuja sigla coincide com o nome em inglês do presidente da empresa (Chief Executive Officer), que transmite luxo e sofisticação. Um caso bem diferente ocorre no Nordeste, onde uma construtora mantém uma tradição desde o primeiro edifício construído, na década de 1970, de nomear seus empreendimentos com nomes de mulheres começando por Maria, cujo início foi uma homenagem à matriarca da família, Maria Augusta, e hoje, alguns homenageiam mulheres dos proprietários dos terrenos que, independentemente do nome, tem que se iniciar por Maria. Enfim, como podemos ver, não existe uma lógica ou receita pré-determinada para a escolha do nome, e o que se percebe é que o batismo segue a tendência do mercado, cabendo aos marqueteiros interpretar esses desejos e fazer com que o potencial comprador se identifique com o batismo dado ao empreendimento.

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