Com a cara do interior

Bairros da Graça, Calafate e Minas Brasil, em BH, ainda guardam o clima bucólico do interior

Em meio à expansão imobiliária e crescimento populacional, alguns bairros de Belo Horizonte ainda mantêm clima de tranquilidade e estimulam a convivência social

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postado em 27/06/2016 16:48 Gustavo Perucci /Estado de Minas
Casal namora na Praça Capela Nova, no Minas Brasil. Moradores aproveitam o local para bater papo, se divertir e descansar em meio à tranquilidade do bairro - Edésio Ferreira/EM/D.A Press Casal namora na Praça Capela Nova, no Minas Brasil. Moradores aproveitam o local para bater papo, se divertir e descansar em meio à tranquilidade do bairro
No meio da loucura da intensa movimentação de carros e pessoas nas grandes avenidas, alguns bairros bem centrais da capital de Minas ainda guardam um pouco do clima bucólico que remete a uma Belo Horizonte de décadas atrás. Vizinhos que se conhecem, pessoas se cumprimentando na rua, o canto dos passarinhos reverberam sem serem abafados pelo alto ruído de automóveis e ônibus. Claro que a expansão imobiliária e populacional da cidade chegam a essas vizinhanças. Mesmo assim, a poucos metros de grandes corredores de trânsito, é possível levar uma vida ligeiramente parecida com a do interior.

Simpático e acolhedor, o Bairro da Graça é uma das vizinhanças mais tradicionais da Região Nordeste de BH. Mesmo com o crescente interesse de investidores do mercado imobiliário, casas com 50, 60 anos persistem, e ainda abrigam a maior parte dos moradores. Se a proximidade ao Centro da cidade valoriza e, inevitavelmente, transforma o bairro, resquícios de uma época em que grande parte das ruas não era pavimentada e as residências ainda tinham muros baixos ou cercas de arame. “Cheguei a pegar a casa do 'seu' Manoel com porteira ainda”, relata Walmir Augusto Silva, motorista, ao apontar para a casa de um dos seus vizinhos na Rua Jussara, atrás do Santuário de São Judas Tadeu, principal ponto de referência do bairro.

Durante a entrevista, realizada à sombra de uma das várias árvores da rua, sentado no passeio, Walmir mostra o banco de concreto de um vizinho está ali desde que era menino. Outra moradora da rua para o carro ao seu lado só para desejar um agradável “bom dia”, devidamente retribuído por ele. “Conheço bem o pessoal daqui. Não tenho muito contato com os moradores dos prédios aqui do lado. Mas os das casas, conheço todo mundo. É esse pessoal mais tradicional do bairro, de famílias que moram aqui há décadas. A convivência é muito boa, quando a gente encontra na rua, conversa, se cumprimenta”, conta. A casa em que seus pais se mudaram há 60 anos abriga hoje ele e seus irmãos. E boa parte deles nasceu sob aquele teto. “De parteira mesmo”, completa Walmir.

Bairro da Graça é uma das vizinhanças mais tradicionais da Região Nordeste de Belo Horizonte - Edésio Ferreira/EM/D.A Press Bairro da Graça é uma das vizinhanças mais tradicionais da Região Nordeste de Belo Horizonte
Mesmo localizado às margens da Avenida Cristiano Machado e Rua Jacuí, dois intensos corredores de trânsito da região, o centro do bairro parece blindado ao barulho constante de seus limites. Walmir garante que dorme com a janela do quarto aberta todos os dias, e que não se incomoda com os passarinhos que vivem no bambuzal do quintal de sua casa e começam a cantoria logo cedo. “Aqui é bem sossegado, sem barulho, sem assalto, mesmo morando perto da loucura da Jacuí e da Cristiano Machado... Acho que a Vila Militar aqui do lado ajuda a coibir os assaltos”, afirma. O motorista aproveita o comércio local, que ainda preserva mercearias típicas do interior do estado, para sanar a falta de um supermercado próximo. E tem de tudo: bares, farmácias, sacolões, escolas, padarias... Tudo a poucos metros de casa.

TUDO PERTO DE CASA
Quem também aproveita o comércio local é o aposentado Alfredo Gama, que vive há mais de 20 anos no Bairro Calafate, na Região Oeste de BH. Ele garante que consegue resolver tudo o que precisa a pé. “Mora entre a Platina e a Amazonas, mas em casa não parece que tem esse movimento todo. Lá pelas 20h você quase não vê ninguém na rua”, conta Alfredo.

Walmir Augusto Silva mora há mais de 50 anos no Bairro da Graça e conhece praticamente todos os moradores - Edésio Ferreira/EM/D.A Press Walmir Augusto Silva mora há mais de 50 anos no Bairro da Graça e conhece praticamente todos os moradores
Quem não conhece e tenta chegar ao Calafate pelos grandes corredores de trânsito que circundam o bairro não consegue imaginar que a poucos quarteirões de avenidas como a Amazonas e Teresa Cristina o que impera é a paz. Com muitas casas ainda resistentes à especulação imobiliária, ruas tranquilas e bem arborizadas, parece que o tempo passa mais devagar na vizinhança. Claro que marcas do crescimento de Belo Horizonte não poderiam deixar de afetar o bairro, como o volume de carros estacionados e pichações. Mas, com sua história ligada às primeiras décadas de existência da capital, é possível viajar pelo tempo nas casas das décadas de 1940, 1950 e 1960.

“Não sei se é porque o imóvel é caro, mas ainda tem muitas casas. Mesmo assim, vejo várias sendo demolidas”, relata Alfredo. Ainda assim, o aposentado aproveita a tranquilidade que ainda existe na região: “A gente faz amizade com o pessoal da rua e do comércio aqui do lado. Comprimento os vizinhos na rua, dou bom dia e procuro conviver bem. É engraçado, porque dentro do meu prédio mesmo tem gente que não conversa, não cumprimenta...”. E como um bom morador do “interior”, Alfredo vai todos os domingos à missa na Paróquia São José para, além de fazer sua prece, se encontrar e conversar com amigos.

A aposentada Maria Luiza de Almeida diz que adora passear na pracinha do Bairro Minas Brasil - Edésio Ferreira/EM/D.A Press A aposentada Maria Luiza de Almeida diz que adora passear na pracinha do Bairro Minas Brasil
PRAÇA E SOL Após deixar o neto na escola, Maria Luiza de Almeida, aposentada e escritora, aproveitou para tomar um pouco de Sol na Praça Capela Nova, no coração do Bairro Minas Brasil, na Região Noroeste da capital. Mesmo reclamando da condição do espaço público, que, segundo ela, deveria ser mais bem cuidado e contar com uma unidade da Academia a céu aberto, como em tantas outras praças da cidade, a aposentada garante ser muito feliz na vizinhança.

“Aqui é muito gostoso de morar. Aproveito bastante a pracinha. A primeira vez que vim ao Minas Brasil já me apaixonei por esse lugar. Isso aqui para mim é igual cidade do interior. O pessoal se cumprimenta, dá bom dia, boa tarde. Com a maioria dos vizinhos, a comunicação é muito saudável”, diz Maria Luiza.

Só para confirmar a aposentada, durante a entrevista, um senhor passa ao lado de diz um sonoro 'bom dia', antes de se sentar com amigos em um dos bancos da praça. Essa cordialidade no cotidiano, mesmo com quem nunca se conversou, parece afastar o Minas Brasil de todo o movimento da Rua Padre Eustáquio ou do universitário Coração Eucarístico, ao lado do bairro.

O aposentado Alfredo Gama, que vive há mais de 20 anos no Bairro Calafate, garante que consegue resolver tudo o que precisa a pé - Edésio Ferreira/EM/D.A Press O aposentado Alfredo Gama, que vive há mais de 20 anos no Bairro Calafate, garante que consegue resolver tudo o que precisa a pé
Prédios vem tomando o lugar das casas, algumas com mais de 70 anos de existência, e mudando, mesmo que lentamente, a cara do bairro. Antes disso, porém, dona Maria Luiza aproveita: “Ainda existe muita gente boa e essa tradição de as pessoas se cumprimentarem na rua permanece viva aqui. Mudei para cá há oito anos, mas já conheço muita gente, como o pessoal do salão e da padaria. Pode perguntar lá na Rua Padre Eustáquio, perto da Praça São Vicente. Todo mundo me conhece!”, conta.

E o que o Bairro da Graça, Calafate e Minas Brasil têm em comum, além de estarem na mesma cidade? Todos nasceram pela ocupação de operários e trabalhadores, muitos imigrantes ou saídos de cidades do interior, que, com a valorização das áreas mais centrais de Belo Horizonte tiveram de buscar outro lugar para morar. Da força do povo que ajudou a construir a nova capital de Minas Gerais, resquícios de tempos mais simples da cidade preservam a história de um centro urbano em constante transformação.
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